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Quem vive no seu mundo criado? Quem são as pessoas orbitando o personagem principal? E por que importa tanto que eles sejam igualmente tridimensionais? Outra lição de Shakespeare, outra lição de Sandman - e o Neil Gaiman mesmo é muito fã do dramaturgo.
A importância do personagem secundário em Sandman
A obra de Neil Gaiman não seria nada sem seus personagens secundários. Isso porque, mesmo com um conceito em forma de gente, o próprio Morfeus, não dá para criar uma história sobre a personificação dos sonhos sem falar sobre os sonhadores. E isso Sandman faz aos montes.
São inúmeras capítulos que atuam como spin-offs e trabalham o Sonhar, o Sonho e seus irmãos. Essa imersão transforma a leitura em outra experiência.
Longe de fazer da história uma narrativa arrastada e desinteressante por focar em outros núcleos, os personagens secundários tornam-se principais em determinadas sagas e cativam, muitas vezes, mais do que o próprio Sandman.
O que Shakespeare ensina sobre personagens secundários
Você pode tomar como regra: todo personagem de Shakespeare demonstra, ao menos, uma emoção.
E por que isso é importante? Porque os personagens passam a ser vivos, eles agem e interagem com o mundo, ainda que tenham apenas uma cena. Isso faz com que todo o espetáculo absorva o observador e gere estímulos que sobreponham o mundo real. Mesmo que eles tenham apenas uma fala, é nessa fala que eles demonstram algo sobre eles, um sentimento, uma opinião etc.
As pessoas só se importam quando se conectam ao mundo, isso é uma verdade absoluta na escrita.
Quando seus personagens demonstram emoções, quando o leitor se relaciona com eles, isso cria uma empatia ainda maior pelo mundo, e a sensação de tridimensionalidade, de profundidade, evita aquela impressão de que são todos descartáveis, quase fantoches.
O grande problema do personagem secundário é, na maioria das vezes, cair na obviedade e se transformar em um manequim. Ao dar ao seu personagem uma emoção, um desejo, uma opinião, você cria uma camada a mais. E quanto mais camadas sua história oferecer, mais sólida ela será.
O paradoxo dos personagens secundários
Esse é um problema comum, inclusive para mim.
Eu gosto bastante de histórias em que o personagem principal é neutro, e ao seu redor concentram-se sujeitos distintos e especiais.
Dito isso, saiba que, muitas vezes, eu queria que meus personagens secundários tivessem mais espaço. Em meu primeiro livro, A Pergunta no Espelho, acabei usando três capítulos extras para contar a história de três personagens secundários, mas tudo isso cabia dentro do enredo, como falei em outro artigo.
É importante reforçar que nada na sua narrativa deve ser gratuito, nem mesmo os personagens secundários. Eles precisam estar ali para oferecer um contraponto ao protagonista, e também um complemento.
E se você acha que seu personagem principal não está interessante o suficiente, e acaba sendo mais maçante que todo o resto na sua narrativa, está na hora de rever a construção dele. Para mais algumas dicas sobre como escrever um livro, acesse meu artigo sobre protagonistas.
Boa escrita e até a próxima.
Deixe nos comentários se falta alguma dica, se concorda ou se discorda desse material :)