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Como escrever um livro #3: O enredo

Sua narrativa vai ser dividia em três atos ou cinco? Macbeth é a melhor peça do Shakespeare. O clímax da sua história não é a última página - aprenda com Sandman. Para escrever um bom livro, enredo é fundamental.

Você deve começar simples

Como sempre, você deve começar esse texto lendo os outros dois artigos que já escrevi: um deles é sobre protagonistas e o outro é sobre antagonistas. Ambos são muito importantes para você entender o que tenho a dizer sobre enredo. 

Essencialmente, o enredo da sua narrativa deve estar entrelaçado com o desenvolvimento do seu protagonista. São diferentes lados de uma mesma moeda. 

Algo que muito me incomoda quando falamos de ficção fantástica é a incapacidade de muitos autores de criarem narrativas que sejam sobre algo mais do que os universos concebidos. 

Muito tempo se perde falando em como os dragões são ferozes e as montanhas são altas, e pouco se desenvolve efetivamente em uma narrativa profunda e significativa.

Por isso, inclusive, autores como Neil Gaiman e Patrick Rothfuss são meus favoritos. Eu já falei sobre o Neil Gaiman vezes e vezes e vezes e vezes mais, então não vou me repetir, mas ainda não tirei meu tempo para falar propriamente sobre o Patrick Rothfuss, então daqui alguns meses talvez eu faça isso. 

Mas, de maneira geral, o que esses dois autores fazem muito bem é apresentar a narrativa sempre entrelaçada ao desenvolvimento e ao dilema do protagonista. 

O Nome do Vento é um livro sobre a vida de um bardo, que a conta para um cronista. Enquanto relata, o personagem tem consciência sobre a própria história, e faz os comentários necessários para criar uma narrativa, mais do que apenas um relato estritamente verossímil, e isso mostra a importância que a própria narrativa tinha para ele: a pressão em ser mais do que já era fez de Kvothe o taberneiro Kote, e antes disso o assassino do rei. 

Todo esse dilema ainda se completa com um mundo rico e detalhado que Rothfuss cria, mas você nunca perde de vista o que é realmente importante: o desenvolvimento da personalidade de Kvothe e seus desejos de grandeza. 

A diferença entre histórias de três e cinco atos

Essencialmente, uma é mais detalhada que a outra. Os pontos importantes devem estar em ambas. Detalhe essencial: o clímax não é o fim da história, o clímax é a catarse, e a catarse acontece antes, dando tempo para resoluções finais nos últimos capítulos tomarem forma. 

Um exemplo pouco concreto porque ainda não foi publicado: um dos meus livros em desenvolvimento tem a catarse planejada para a virada do segundo ato para o terceiro. Isso, em meus cálculos, será por volta da página 600 e alguma coisa. Ainda tenho, planejadas, mais 300 páginas de história, que são a conclusão da aventura e a resolução dos dilemas que surgiram antes. 

A história em três atos é simplesmente: apresentação-desenvolvimento-conclusão. E tem outro vídeo bom sobre isso no Lessons from the Screenplay, então vou me limitar a deixar o link e não explicar tão profundamente.


A vantagem dos cinco atos é poder pensar em mais eventos complementando a narrativa. Voltando ao meu livro em desenvolvimento, a história será dividida em três atos/tomos físicos. Ou seja, três livros (por conta do tamanho excepcional de 900 páginas), mas a narrativa como um todo (pois, afinal, é uma história só), é divida em cinco atos. 

E como funciona essa confusão e matemática maluca? Bem, pode chamar essa teoria que apresento agora de Teoria Atômica da Literatura (completamente inventado aqui na hora, deve ter um nome oficial certamente).

É bem simples. 

Se você pensa em uma saga de 10 livros seguindo o modelo de cinco ou três atos, a saga como um todo deve seguir uma apresentação em cinco ou três atos. Contudo, cada livro individualmente deve apresentar uma organização em cinco atos e, indo mais além, cada capítulo deve ter a mesma estrutura: apresentação-desenvolvimento-conclusão. 

Essa organização cíclica, além de facilitar eventuais planejamentos prévios na hora da escrita, também possibilitam o desenvolvimento de um fluxo e um ritmo de trabalho mais preciso, e criam dentro da narrativa momentos de respiro e ação mais orgânicos. 

O enredo em si não é sobre o quão complexa sua narrativa é, nem sobre quantos personagens e reviravoltas você consegue colocar, mas sim sobre a sua capacidade de encaixar argumentos e eventos de uma maneira natural e lógica, sem forçar sobre o leitor conclusões exageradas. 

Saber criar um enredo é essencial para quem quer saber como escrever um livro.

Boa escrita e até a próxima.

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