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Eu não sei se esse post vai ser publicado, enquanto escrevo pensarei nisso. É complicado. 2020 foi um ano horrível. Ele nem precisa ter acabado (falta um mês para o Réveillon neste momento) para qualquer um com bom senso afirmar, em alto e bom tom: mas que merda de ano.
Uma pandemia grave já deixou milhões de mortos, o Brasil enfrenta uma decadência política tremenda, perdendo credibilidade internacionalmente por um governo que se propõe, ativamente, a ir contra a própria população. Casos graves de racismo assolam o país e parecem crescer em número, as terras dos povos originários são invadidas e a população é expulsa a força para capitalizarem um terreno que, como o resto do país, é deles por princípio. Aumento na violência doméstica contra mulheres e crianças, 30% do Pantanal consumido em fogo, volta do Brasil ao mapa da fome, recordes de temperatura mostrando que o aquecimento global é uma realidade palpável e próxima... Esses são, é claro, os que eu lembro de imediato. Há muita coisa pior por aí, e nem sequer preciso citar as guerras e conflitos escalando ao redor do mundo.
Este não vai ser um artigo animador, eu não tenho palavras positivas sobre tudo isso. Não sei se existem, na verdade. O que eu poderia falar? "Tudo passa"? Mas com que cara de pau? Passa para quem? Os homens mais ricos do mundo ficaram centenas de bilhões mais ricos, os mais pobres ficaram ainda mais pobres.
Anos atrás, quando eu li a carta do Bill e da Melinda Gates sobre os progressos no planeta, eu me senti até mesmo animado. Havia uma perspectiva. Essa janela parece ter se fechado em 2020. Quando falamos sobre impermanência, quando as pessoas dizem que tudo passa, elas se esquecem que, fundamentalmente, coisas boas também passam, e no lugar delas restam as tragédias como as deste ano.
Até o terremoto de 2009, o Haiti era o país mais pobre da América. Agora, um dos mais pobres do mundo. Tudo passa, mas nem tudo melhora. O progresso é construído e sustentado com muito esforço, é mais fácil retornar à desordem. Na física, todos os processos estão sujeitos a essa verdade, à entropia. Em níveis humanos, é lutar contra nossa barbárie.
O que eu quero dizer com tudo isso? Também não sei ao certo. Significados são muito mais construídos do que encontrados. É tentar fazer senso de uma tempestade de areia pela perspectiva de um único grão de poeira. Ao redor, seguindo o fluxo, é possível até mesmo perceber uma certa calma, afaste-se um pouco e perceba o turbilhão fluindo ao redor.
Faz tempo que eu não escrevo, faz tempo que eu não produzo. Repito os mesmos beats e versos aqui no apartamento, provavelmente incomodando os vizinhos, pensando em juntar dinheiro para voltar ao estúdio. Para quê? Enviei releases recentemente que nem sequer foram respondidos. Tenho dois livros de contos prontos para revisão e publicação. Para quê? O Brasil tem uma das piores taxas de leitura do mundo. Para qual mercado vou falar? Qual o ponto de um livro que ninguém lê?
Eu me mantenho ilustrando, ao menos. É terapêutico como a pintura. Dentro de cada traço e cada cor eu consigo apagar os pensamentos e focar exclusivamente naquela atividade. Mas meu quadrinho Pássaros da Praga está paralisado, enquanto eu sigo fomentando na minha cabeça um roteiro de mangá cuja duração ideal seriam 15 anos.
É difícil não falar sobre caos e não tornar isso um artigo egocêntrico. Em minha defesa, eu acho natural que seja assim. É um instinto de sobrevivência fechar-se por completo aos problemas externos e focar apenas nos seus, o excesso de informação nos sobrecarrega até a última instância. As redes sociais são desenhadas para saturar nossos cérebros de primata com fotos, links e vídeos. Ainda assim, não podemos fechar os olhos para essa realidade ao redor. Eu tento não fechar, por mais que seja difícil. Sei que a maioria das pessoas tenta não fechar os olhos apesar dos horrores que nos mostram todos os dias.
É difícil, pra mim, pensar em uma saída. Em meados de setembro de 2021 devo lançar meu primeiro jogo de computador pela Maned Wolf, uma parceria minha e do Lucas Piazzi, que fez parte do Pergaminho Virtual comigo. Eu não sei, sinceramente, como vai estar o mundo quando o jogo estiver pronto. Quando eu ouvi a propaganda "Pior que tá não fica, vote no Tiririca", achei que tinha um certo fundo de verdade, mas a gente se acostuma a bons padrões de desenvolvimento e a normalidade passa a ser a base. Quem cresceu nos anos 2000 achou que o Brasil era uma nação realmente poderosa, mas isso era um lapso, tudo passa, impermanência, cá estamos de novo como nos querem - subservientes e desorganizados.
É por isso que eu volto sempre esse debate a como vejo, porque eu encaro essa situação e me questiono como sobreviver até lá em conjunto. Se eu pensar só na minha permanência, eu sumo. O coletivo tem um poder enorme. Uma parte minha, não sei se por carência ou necessidade, busca sempre um grupo, uma identificação. Outra parte só quer estar sozinha, completamente isolada e intocada. Viver no vácuo é um sonho utópico (para onde quer que se olhe há um filho da puta para tirar a paz).
Exatamente uma semana atrás, no dia 20/11/2020, data do meu aniversário, dia da Consciência Negra, em que se lamenta a morte de Zumbi dos Palmares e que se celebra sua luta por libertação dos povos escravizados no Brasil, um senhor negro foi espancado até a morte no Carrefour. A empresa? Segue bem. Só uma semana depois entrou em contato com a família. Não se apagam as marcas de sangue no solo da pátria, por isso a gente esquece a cor dessa terra submersa em vermelho. O Carrefour sabe que essa morte não vai afetar suas vendas, tranquilos assim podem chamar de "acidente" um assassinato cruel.
No começo do ano, início da pandemia, uma criança foi baleada na cabeça. O nome dele era João Pedro. Meu xará. Nomes idênticos, vidas fundamentalmente opostas. A dele, inclusive, exterminada por uma ação policial injustificada e criminosa no Rio de Janeiro. 12 ou 14 anos, eu não lembro ao certo. Ele não vai chegar aos 23, como eu cheguei esse ano, sua existência, outrora dificultada por políticas estatais, foi então negada de vez. Crueldade e absurdo.
A gente é sobrecarregado com informações. Hoje eu tento filtrar o que vejo, mas certas coisas se agarram e ficam presas à mente. Essas são duas histórias que ficaram. Não por uma mensagem positiva que trazem, mas pela intercessão, pela coincidência cruel de expor o abismo que se impõe entre a minha vida e muitas outras. Para 2021, uma das coisas que espero ver mudar é essa falta de ação minha. Eu só posso cobrar meus gestos e atos. Sabendo dos danos e desafios, o que posso fazer com o que tenho? Como posso deixar marcas indeléveis e positivas no mundo? Posso sequer pensar, como indivíduo, da baixeza do meu ser, em mudar algo? Não seria isso ego demais?
Viva Bem, Morra Rápido. É possível traduzir isso de uma perspectiva hedonista. Contudo eu também posso ver nisso um outro significado, um outro lembrete. Viver bem é ajudar a construir pro próximo. É ceder o lugar com graciosidade, deixar mais do que pegou. Quem vive bem, não precisa viver muito. Aproveite, construa e parta. Não é necessário mais do que isso.
Eu não vou acreditar que tudo é efêmero, essa é uma posição de derrota. Certas coisas, certos valores, precisam ser duráveis, ainda que exijam trabalho e esforço. Que 2020 passe e que fique a lição, como as águas de um rio que cortam a pedra e moldam sua forma - ou qualquer baboseira poética do tipo (eu realmente preciso voltar a escrever).
Bom final de semana.