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Eu sou obcecado com livros de ficção fantástica. Eu li muitos, já perdi a conta. Dos clássicos como O Senhor dos Anéis até coisas como Artemis Fowl e populares da nova geração como As Crônicas de Gelo e Fogo. Nenhum livro me impressionou tanto quanto O Nome do Vento. E eu desisti de ler ele duas vezes antes de chegar no quinto capítulo.
Um problema do Rothfuss: ele é muito descritivo. Não tanto quanto o Martin, a ponto de isso se tornar um problema, mas ainda assim ele é excessivamente detalhista.
Há uma ambientação nos pormenores, seja essa ambientação através do psicológico, do cenário ou da geopolítica e economia do local. Isso gera imersão, mas a história precisa ir além desse framework bonito.
O Nome do Vento vai além do framework bonito criando personagens tridimensionais e aplicando uma narrativa em camadas de maneira a ter um dinamismo maior.
Essencialmente, acompanhamos a história de Kvothe, em terceira pessoa, que conta sua história de vida em primeira pessoa. Há momentos em que são feitas pausas para Kvothe fazer outras coisas, mas, longe de ser um exercício de auto memórias, "As Crônicas do Matador de Rei" (e eu odeio títulos com crônica no nome só para ficar bonito) funcionam como um exercício literário.
Quem registra a história é o Cronista, com C maiúsculo mesmo, um cara cujo grande papel no mundo é anotar as coisas. Quem conta, todavia, é Kvothe, e longe de ser um herói que participa de grandes e épicas batalhas, o protagonista é um bardo.
A presença da música para o personagem é muito importante, mas não é só isso. Sendo de uma trupe de artistas itinerantes, dentro da própria vida, o rapaz começou a moldar a maneira como as pessoas o viam.
Do lado de fora, escrevendo suas crônicas, ele faz a mesma coisa. É um processo de autoconsciência na estruturação que funciona tanto como estratégia de roteiro, uma metalinguagem com a própria história, quanto como um diferencial no Kvothe: até certo ponto ele sabe que sua história está sendo contada (sem quebrar a quarta parede).
Apesar das comparações com As Crônicas de Gelo e Fogo e Harry Potter, a narrativa tem originalidade suficiente para não viver às custas disso. são, de fato, as peculiaridades da própria personalidade de Rothfuss que elevam o livro: um protagonista mais humano, dramas relacionáveis (falta de dinheiro, preconceito, etc), a música, a arte… os nomes.
Todo o cerne da narrativa é sobre nomes. Nomes dão poderes a quem os sabe. Nomeadores são os grandes magos nesse universo. A magia cotidiana é mais indireta, mais científica. Contudo, os Nomeadores dobram a realidade à sua vontade.
E qual o ponto de fazer uma narrativa sobre nomes? Criar uma crise de identidade em um personagem que passou a vida toda atuando e contando a própria história. São essas nuances que realmente constroem uma obra sólida, mesmo que longa e super detalhada às vezes.
Tudo isso se amarra de maneira fantástica. A persona de Kvothe, obcecado e autocentrado nos próprios talentos, contrasta com sua condição como artista itinerante, pertencente a uma linhagem tratada muitas vezes como subhumana (os Edena Ruth possuem inúmeras similaridades com os povos ciganos), e o choque entre essas condições forma inúmeros conflitos realistas.
Kvothe narra a própria vida tentando assumir uma condição neutra, mas é inviável esse papel, e seus sentimentos vão sendo passados para o Cronista (e para os leitores) de maneira tão sutil que é difícil não se ver imerso naquele turbilhão de sentimentos.
Rothfuss faz um protagonista que não tem medo de chorar, que não tem medo de agir de maneira ilegal para conseguir o que quer, que precisa pegar empréstimos e pagar juros para se manter vivo. É uma narrativa tão humana que a ambientação fantástica se torna, por isso mesmo, menos fantástica.
E essa é uma narrativa MUITO fantástica. Há toda a questão dos Nomes, e em como isso molda a realidade naquele universo, há o mundo das fadas, acessível apenas através de uma falha na membrana no mundo, que ocorre por problemas criados pelos nomeadores milênios antes, há um grupo de assassinos demoníacos invocados por seus nomes reais, que vagam entre lendas e histórias até que são de fato vistos por Kvothe e afetam a vida dele...
Mesmo assim, é possível se prender ao medo de Kvothe em sua relação com Denna, uma garota misteriosa que vive mudando de nome, namorado, e viajando perdida na busca por melhores condições de vida. As inseguranças do trovador marcam os capítulos e são, por ele mesmo, marcações na própria vida.
Rothfuss conta uma história sobre um homem contando uma história, e ambos são conscientes desse papel. Isso é fantástico - um elemento de criação que ficou marcado em outras obras grandiosas, como O Senhor dos Anéis.
Os livros são enormes, e podem acabar afastando alguns leitores por isso, mas vale insistir. Cada página é um presente ao leitor mais dedicado. Meu próximo objetivo é ler em inglês, porque a prosa de Rothfuss é extremamente rica e intricada, com construções frasais impressionantes.
Nos últimos anos, de todos os lançamentos em ficção fantástica, eu acho O Nome do Vento e O Temor do Sábio as duas melhores lançadas. Caso finalize a trilogia, Rothfuss deve se consolidar como um dos maiores escritores do segmento de todos os tempos.
