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Limitado em minhas leituras após uma fase extremamente farta de títulos, decidi reler As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin. É claro que, pelo título, alguns fãs mais fervorosos podem estar indignados, mas, por favor, acompanhem até o fim do artigo e entendam o que quero dizer.
A primeira coisa que notei ao reler a saga de Martin com mais calma é o excesso de descrição. Existem três tipos de parágrafo nos 5 livros (até agora): aqueles que descrevem comida, aqueles que descrevem roupas e os diálogos, que descrevem o que os personagens pensam e sentem.
Ainda que isso seja um exagero rudimentar, não deixa de ter sua
verdade, na busca incessante por um mundo crível, o autor esquece que o mais
importante, o que mais conecta os leitores, são os personagens – e esses são
mal desenvolvidos ao longo das obras individuais.
É inevitável comparar, especialmente quando preciso me justificar aqui, mas comparem o desenvolvimento de personagens em A Guerra dos Tronos, livro um da saga, com o desenvolvimento de personagens em Crime e Castigo.
Não há profundidade na obra de Martin no que se refere à
pisque de seus protagonistas, e creio que esse problema exista justamente por
serem muitos e espalhados. Tudo que é preciso saber sobre os personagens é dito
de forma clara, é entregue de maneira direta, o leitor não infere coisa alguma
da obra, não existem entrelinhas.
Tudo o que mantém As Crônicas de Gelo e Fogo coeso
é o enredo, e ele perde a graça depois da primeira vez - o fator de surpresa possui grande peso na série de livros (e possuía na série de TV também).
É fato que, após as viradas no plot, um retorno à história passa de um emocionante passeio por uma montanha-russa para uma caminhada pacata por um caminho repetitivo.
Excluem-se as surpresas e pouco
sobra aos livros que não sejam as descrições de um universo rico, mas que se
limita justamente a isso. Na busca quase obsessiva por detalhes, George Martin
cria um mundo que é enfadonho se revisitado.
Soma-se a isso à série de TV e temos uma repetição de enredos (com graus mais ou menos aceitáveis de respeito ao material original) que cansa mesmo o fã mais dedicado. E eu falo isso com firmeza: o universo de Martin é extremamente cativante, mas não pode ser apenas cativante.
Do que adianta imaginar o que existe na Terra das Sombras de Asshai se isso
pouco importa para o enredo? Onde estão os desenvolvimentos de personagens que
nos farão realmente lamentar os incidentes que se seguem?
A verdade é que com poucas páginas por vez, As Crônicas de Gelo e Fogo mais se assemelham a pequenos contos despretensiosos reunidos em uma coletânea e que, por algum feliz acaso, compartilham de alguma identidade dentro daquele universo. Não há objetivo por trás da narrativa dos personagens, ao menos, não um que seja claramente planejado por Martin.
O que
existe é exposição atrás de exposição e uma ou outra interpretação que podemos
fazer em cima da obra, mas essa interpretação dificilmente representa alguma
intenção real do autor.
É claro que existem os pontos positivos na série de livros, não estou aqui para ofender apenas. A dedicação de Martin para com seus detalhes e a intricada cadeia de eventos que se estabelece é digna de elogios e estudos, mas fica nisso: diálogos rápidos e inteligentes ou monólogos expositivos sobre o passado dos personagens, descrição de roupas e comidas e personagens, listas intermináveis de nomes e um apelo – e aqui entra minha opinião pessoal, mais do que minhas interpretações sobre literatura – desnecessário à violência excessiva como método de choque ao leitor.
Voltando à
Crime e Castigo, não é o fato de Raskolnikov abrir a cabeça da fiadora a
machadadas que mais choca, mas sim a completa falta de empatia do personagem em
assumir aquilo como um crime desumano (e antes que reclamem de spoilers, isso
acontece bem no início do livro e é, de certa forma, irrelevante pelo
acontecimento em si, os desdobramentos mais interessantes na obra de
Dostoievsky são sempre os psicológicos).
Nesse sentido, há muito palavreado e exposição, mas pouca singeleza e uma construção de algo que seja mais denso, de algo que seja permanente no leitor depois.
Você pode fechar o livro e abrir a boca em espanto pelo que aconteceu a um personagem chave na história, mas isso passa com o tempo, e aí entra a necessidade crescente do enredo se repetir em plot twists e aumentar a carga dramática, embora haja pouco drama de fato, dos acontecimentos. É como um vício, em que cada morte precisa ser mais grotesca que a anterior para as pessoas continuarem consumindo os livros.
Não há mensagem para posterioridade, As Crônicas de Gelo e Fogo são momentâneos, embora algumas pessoas tendam a comparar Martin a Tolkien em impacto para a posterioridade e grandiosidade do trabalho e para isso eu reservo apenas silêncio e a ausência de palavras.
Resumidamente, chamar George Martin de bom
escritor é ignorar qualquer bom trabalho já realizado na literatura séculos
antes, ou até mesmo nessa década. Existem obras de fantasia e autores de
fantasia que usam do universo criado uma forma de crítica ao mundo presente em
que vivemos (os links para os meus artigos sobre o Neil Gaiman vão no final do
post, afinal, ele é a síntese desse meu pensamento) e não se deixam levar pelo
deslumbramento que descobrem em inventar todo um novo mundo, por mais que essa
realidade seja, deveras, extremamente interessante.
No fim, só me resta dizer aquilo que um amigo meu bem resumiu quando discuti esse problema com ele: o George Martin não é um bom escritor, só um excelente contador de histórias, mas isso são duas coisas completamente diferentes.
