Pular para o conteúdo principal

One-Punch Man e o mangá de gênero bem escrito


O estilo de quadrinho que talvez mais se destaque por suas características específicas é o mangá. No ocidente, é possível dizer que as histórias se dividem quase exclusivamente em quadrinhos e graphic-novels, as “histórias adultas”. 

No oriente, todavia, as subdivisões nos mangás em shonen, shoujo, seinen e infinitas mais, permitem que os autores trabalhem cada obra dentro de seus signos e códigos próprios (essa é uma análise reducionista de ambos os lados, mas fica até o final).

Essas subdivisões geram, porém, o problema dos vícios de elementos. 

Em todo shonen, as histórias para jovens rapazes, é essencialmente compostas de protagonistas fortes e engraçados, um anti-herói antissocial, personagens femininas hipersexualizadas e vilões exagerados. 

Os shoujo, as histórias para jovem moças, têm personagens de olhos mais expressivos e brilhantes, enredos de amor e geralmente protagonistas com óculos e maneiras simples e confiantes. 

Os seinen escapam um pouco à regra, mas a característica geral de traços mais realistas e histórias mais pé no chão não deixam de ser fatores limitantes por si.

Curiosamente, são as histórias que mais dialogam com a questão do gênero a qual pertencem que acabam ventilando esse sistema supersaturado do mercado de quadrinhos japoneses. Enquanto histórias tradicionais como One Piece, Bleach, Naruto, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Fairy Tail, seguem por décadas se arrastando em tramas cada vez mais megalomaníacas e grandiosas, repetindo o mesmo esquema de roteiro, da jornada do herói precisando crescer em poder e sabedoria.

É nisso que One-Punch Man se destaca como uma história. Não há enredo de superação, Saitaman, o personagem principal, é invencível. Sendo o homem mais forte do planeta, tudo que o impede de concretizar seus desejos é seu próprio desligamento da realidade. 

Como uma entidade divina, o herói pouco sente ou se importa com as coisas ao redor, tudo o que busca, no fundo, é o desejo de combater alguém de igual para igual. Esse fator de dificuldade, a habilidade suprema do personagem, cria tramas interessantes, fugindo do modelo tradicional do shonen (ao mesmo tempo em que parodia essas narrativas ao exagerá-las).

Falando em modelo tradicional, todos os clichês estão lá: os personagens exóticos, os vilões que vêm em clãs e possuem diferentes formas e fases, os momentos dramáticos etc. Para onde quer se olhe, One-Punch Man destrói clichês, literalmente, com um soco.

Saitama também é um excelente espelho do observador dos quadrinhos. De sua posição praticamente divina podemos observar o absurdo do mundo do shonen. Enquanto todos se levam a sério e se surpreendem, o Capa Careca, herói profissional da Associação de Heróis, permanece alheio a esses problemas, aos dramas criados. É como uma peça trágica com um único personagem cômico, justamente o principal.

A estruturação de One-Punch Man, por necessidade, também recorre ao que se pode chamar de “salve a Louis Lane”. Assim como o Super-Homem, Saitama é dificilmente derrotado (no caso dele, nunca), então são os personagens secundários que correm riscos. 

Todo o elenco de apoio sofre e luta contra diferentes vilões, mas basta que Saitama entre em cena e as coisas se resolvem – criando muitas vezes momentos cômicos propositais, a evidência do absurdo daquele mundo.

Falando em mundo, é preciso falar das cidades, nomeadas de A a Z, que são grandes centros urbanos, bem semelhantes a Tokyo e outras metrópoles. O mundo é formado por essas cidades, e são tantos os monstros que em One-Punch Man a destruição é parte do cotidiano. Há um paralelo interessante nisso, pois o Japão é um país frequentemente acometido por desastres naturais e catástrofes. A vida segue permeando as mortes e perdas que se seguem, tanto na ficção quanto na realidade.

Apesar de ser uma história essencialmente cômica, as boas cenas de ação (na primeira temporada da animação derivada) enriquecem bastante a produção. Longe de personagens com movimentos mecânicos ou as produções de baixo custo e qualidade tradicionais do Japão (procedimento padrão para uma indústria que precisa criar um episódio por semana com trabalhadores sendo mal pagos, fordistas por essência), One-Punch Man apresenta batalhas primorosas, onde cada impacto de soco (geralmente um só) tem sua extensão e magnitude passados ao público.

O quadrinho de um autor conhecido apenas pelo pseudônimo de One é um espelho do absurdo que as produções de shonen se tornaram, o traço da serialização vai pelas mãos de Yusuke Murata, um dos maiores desenhistas japoneses da atualidade (enquanto One segue desenhando a webcomic que serve de roteiro para o mangá "oficial"). 

Seja proposital ou não, One-Punch Man oferece um espelho para observarmos o absurdo das histórias de gênero, ideia semelhante ao que Guardiões da Galáxia teve ao levar os filmes de herói para uma abordagem mais absurda (especialmente o modo como o vilão é derrotado). O humor, desde a Grécia antiga, era a forma que os autores tinham para criticar os hábitos da sociedade e os governantes. Aqui, é a própria indústria da qual se alimenta que One ataca.

De qualquer forma, todos saímos ganhando com os socos de Saitama e suas batalhas rápidas.

As mais charmosas deste blog

Cowboy Bebop - Análise, crítica e um pouco de melancolia

 Eu nunca tinha visto Cowboy Bebop até entrar no catálogo da Netflix. A história é um desses marcos culturais que todo mundo ouve falar vez ou outra nas rodas de conversa, mas que até ter esse acesse facilitado pelas megacorporações de entretenimento sem criatividade para criar propriedade intelectual nova, na necessidade de reaproveitar o que já funcionou uma vez e pode vender de novo, apenas os dedicados e capazes de piratear tinham acesso. A frase acima ficou enorme. Eu tenho esse problema com minhas introduções. Vamos ao que interessa. Cowboy Bebop é, em resumo, a história de Spike Spiegel, um cowboy - caçador de recompensas - que atua no nosso sistema solar atrás de criminosos e gente da pior espécie. Ao lado dele, o piloto e dono da nave Bebop, Jet, um ex-policial que atuava em Europa e que abandonou a corporação depois de alguns anos e eventos em seu passado.  Depois, junta-se à dupla a criminosa Faye Valentine, gatuna que roda o sistema solar atrás de dinheiro fácil, o...

One Piece - Resumo, crítica e análise de todas as temporadas [em ordem cronológica - em construção]

 Eu assumi comigo esse desafio insano e vou cumprir pouco a pouco. Conforme eu for relembrando as sagas pelo anime, visto que já comecei a ler tem mais de oito anos, vou atualizando aqui esse raciocínio.  Para não enrolar muito algo que já vai ficar imenso, vamos lá. Resumo de One Piece Luffy D. Monkey é um jovem que aspira ser o Rei dos Piratas e para isso sai para os mares em busca do grande tesouro deixado pela lenda suprema da pirataria Roger D. Gol. Luffy comeu a Gomu Gomu no Mi, a fruta do diabo que o transformou em um homem borracha incapaz de nadar. Tendo nada além de um sonho e a capacidade de esticar o próprio corpo em várias formas, o jovem sai pelos mares atrás do One Piece - o tesouro de Roger que irá coroar quem o encontrar como o próximo Rei dos Piratas. No geral, a história vai por aí: pirata que estica roda pelos mares. Vamos agora aos detalhes e minúcias.  Crítica da Saga East Blue East Blue é a primeira saga de One Piece e trata, em termos narrativos, d...

Como escrever um livro #9: Como estruturar um capítulo de livro

O que é um capítulo? Quantas páginas tem que ter um capítulo? Para que serve um capítulo? Mil e uma maneiras de escrever um capítulo por um sujeito que já usou de três delas para três projetos diferentes. O que é um capítulo? Essencialmente, o capítulo é uma divisão narrativa utilizada para oferecer uma quebra na dinâmica do enredo atendendo a algum objetivo e dividindo tematicamente a história.  É uma mini-história dentro da história que dialoga com o resto da narrativa complementando-a diretamente ou indiretamente.  O capítulo é uma subpasta dentro de uma pasta maior, onde pode encontrar uma situação específica: fulano vai a tal lugar, um problema no mercado, pintando as paredes da casa, enfrentando o gladiador da Espanha, etc.  Quantas páginas tem que ter um capítulo? Quantas forem necessárias para sua história. O que costuma ocorrer, na verdade, é autores escolherem uma média de páginas e se manterem nelas ao longo de um mesmo livro. Isso gera conformidade para o leit...