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O polêmico filme Batman v Superman, que dividiu as opiniões da crítica e do público polarizando completamente as notas nos sites especializados, tem uma frase específica que fica em minha cabeça até hoje.
Em
dado momento, numa entrevista na TV, um apresentador pergunta para o
astrofísico/celebridade Neil deGrasse Tyson se o mundo precisava mesmo do
alienígena kriptoniano. De maneira sagaz, Tyson, no filme, replica que não era
uma questão de precisar ou não, pois ele já estava lá, mas o que fariam quanto
àquilo.
De volta à nossa realidade, sem o Super-Homem, poderíamos
aplicar a mesma pergunta, a primeira, e os resultados seriam diversos.
O mundo precisa de um Super-Homem? Os otimistas e idealistas
diriam que sim, afinal, mais do que uma arma de destruição em massa na forma
musculosa e sensual de Henry Cavill, o Homem de Aço é um símbolo de esperança.
Mais do que isso, ele é um símbolo divino muito antes de Zack
Snyder vir com essa ideia.
Criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, o kriptoniano assume características messiânicas evidenciadas por: sua origem caindo, literalmente, do céu, diante do casal Mary e John Kent. O nome Mary (Maria em inglês) retoma a criação divina similar à Jesus.
Não só isso, mas em algumas histórias, antes
do nome de John ser estabelecido canonicamente, aparecia como Joseph, vez ou
outra o pai adotivo de Kal-El (na terra chamado Clark Kent). Por volta de seus
trinta anos, Clark parte em uma jornada, até que funda a Fortaleza da Solidão e
volta para a sociedade com o alter-ego de Superman para salvar as pessoas e
proteger sua vida privada.
As histórias do herói inicialmente seguiam despreocupadas nas Eras de Ouro e Prata dos quadrinhos. Com as reformulações da Era de Bronze, na década de oitenta, muitas histórias desse que é um dos carros-chefe de vendas da DC Comics assumiram uma postura mais madura, especialmente pelo caráter do herói.
Essencialmente, os roteiristas comprometeram-se a assimilar a figura de
Kal-El como o deus entre os homens que sempre foi, cuja posição ficou renegada por anos graças às medidas de restrição de temas nos quadrinhos (coisa que irei abordar em outro artigo).
Eventos como a morte (e posterior “ressurreição”, mesmo que
não tivesse morrido de fato) do herói pelas mãos do vilão Apocalipse (cujo nome
também retoma uma ideia bíblica) mostram parte do processo de cinco estágios de
deificação e messianismo: nascimento, vida, palavra/provação, morte e
ressurreição pela qual Superman passa frequentemente em suas histórias, como
parte de seu “destino”
As habilidades físicas do kriptoniano são superiores às de quaisquer humanos que se possa encontrar, em alguns universos paralelos estabelecidos pela DC Comics, inclusive, Superman cresce em poderes até chegar a um nível em que não mais se distingue qualquer traço de mortalidade.
Sendo
assim, observa-se um padrão em que os inimigos do herói usam mais do intelecto
do que da força física. Também nessa mesma mentalidade é quando a kriptonita
primeiro surge nos quadrinhos, uma forma de anular os poderes que antes tanto
dificultavam qualquer desafio nas aventuras do Superman.
É através de artistas especialmente habilidosos como Alex Ross que esse messianismo se destaca em Superman. Há, obviamente, uma clara distinção entre ele e a humanidade (as imagens mais belas de Ross realçam a divindade de Kal-El em contraplongées repletos de luz).
E nisso entra o ponto de
argumentação proposta aqui, a distinção de Superman para os outros mortais e
como isso seria visto em nossa sociedade.
Poucas histórias realmente avaliam o impacto que um super-herói teria na sociedade. Talvez, a mais clássica e cabível de exemplo seja Watchmen, por Alan Moore, justamente por ser uma história que lida exatamente com o embate entre esses justiceiros não oficiais e a sociedade.
<<Sobre Watchmen, tenho outro artigo especial>>
Fica difícil, assim, conceber um trabalho específico que melhor relacione essa
importância na presença de Kal-El nas sociedades fictícias dos quadrinhos (que eu conheça, é claro, provavelmente um fã mais hardcore vai trazer essas informações nos comentários).
Levando em consideração a maior parte das publicações nas mais diversas mídias da atualidade, o Superman é tido, sempre que se dispõem a isso (sejam os roteiristas ou a linha editorial da DC Comics), como um déspota.
A partir do momento em que usa seus poderes para dominar, instala-se um reino
de terror, essencialmente, em que a força do herói é usada de maneira
“pacificadora”. O herói se transforma em um governador autoritário (quase
sempre enfrentado por um grupo de rebeldes liderados pelo Batman).
Parte dessa premissa se deve muito à psique do personagem, elaborada em anos de anos de volumes e publicações. A existência de Kal-El é suprimida na terra na forma de Clark Kent, um jornalista subempregado e de personalidade introspectiva que trabalha no Planeta Diário.
Sob as condições da sociedade em que vive como um humano normal, Clark precisa refrear seus instintos que clamam por liberdade. Enquanto que seu papel como a entidade kriptoniana superpoderosa que é exigem controle para não usar seus poderes e dar vazão aos seus desejos de liberdade e egoísmo.
Alguns assimilam esse discurso
de autocontrole sob uma perspectiva moral, em que a conformidade e a
não-aniquilação dos humanos demonstra uma ética inabalável do herói. Ao meu ver, todo o caráter despótico de Superman, sempre que se revolta, revela mais sobre os roteiristas como seres humanos (e como profissionais repetitivos) do que o personagem em si.
Na animação baseada no quadrinho Entre a Foice e o Martelo, que mostra como seria se Clark fosse criado na URSS no lugar dos EUA, Superman se torna um déspota após assassinar Stalin e tomar o seu lugar.
Ele promove então o mundo a um local pacífico e sem liberdades individuais, mas completamente evoluído, numa crítica porca ao comunismo que qualquer um deveria ter vergonha de comprar como discurso e ideologia. O argumento vazio de "o comunismo é ruim porque é autoritário e tira liberdades" chega a ser imaturo.
Agora um pouco de filosofia barata...
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche concebe dentro de seus trabalhos a noção de Ubermensch, o Além-do-homem ou Super-Homem. Não só isso, mas associado a esse conceito está o de moral do senhor e moral do escravo.
A teoria de Nietzsche concebe o Ubermensch como um indivíduo acima dos
outros, um ser “mais evoluído” que se desprende da moralidade niilista de sua
época e procura ir além, procura criar seus próprios conceitos e se renovar dentro
de um processo explicado em Assim Falou Zaratustra, em que primeiro se ajoelha,
depois se nega e então são criadas as novas noções.
A outra ideia, de moral do senhor e moral do escravo, propõe que aqueles que possuem a moral do senhor são capazes de criar e valorizam tudo aquilo que lhes é bom, belo e novo.
O senhor é aquele que está em uma posição
de poder e tudo aquilo que possui é moral, enquanto a moral do escravo se
ressente dessa posição de poder de terceiros e assume para si o sentido oposto,
transformando o feio em belo, o fraco em forte e assim por diante. Com as duas
associadas, tem-se que obviamente o Ubermensch é a expressão máxima da moral do
senhor.
Super-Homem por Super-Homem, todavia, não é isso que acontece. Mesmo estando acima de todos os outros homens na terra, fisicamente e psiquicamente muitas vezes, Kal-El se reprime em uma condição que alguns inclusive teorizam ser a de uma inversão psicológica.
Para essas pessoas, a personalidade kriptoniana é secundária à do jornalista do Planeta Diário. Ou seja, a condição de super-humano é dependente da condição de humano. Essa inversão justifica muitas vezes os surtos que se apresentam nos quadrinhos em que o Superman se transforma em um déspota (Injustice, Entre a Foice e o Martelo etc.)
(E da qual discordo absurdamente, mas sobre a qual falarei apenas ao final do artigo)
O argumento costuma de ser de que, por ser um personagem dotado da moral do servo, da moral do escravo, diante de uma situação de estresse, Kal-El assume para si um simulacro de força e dominação que resulta de suas interpretações errôneas sobre as dominações nas sociedades humanas.
Ele passa a impor sob as pessoas aquilo que
antes lhe era imposto socialmente. Podendo ser qualquer um, mas sendo pequeno
em sua vida social, como balanceamento à sua condição naturalmente maior, a
psique do personagem colapsa em momentos de crise.
Na outra via, um personagem que fosse dono de si, possuindo as características sobre-humanas que o Superman possui e se elevasse a essa condição, não enfrentaria esse problema. Não haveria como afetar o lado humano de uma entidade que estivesse além do homem.
É na perspectiva de distanciamento das falhas humanas que se transformam e elevam os ícones, é nisso que falha Kal-El como personagem real dentro daquele mundo fictício, ele se prende a um pensamento falho de que “para salvá-los é preciso ser como eles”.
E é esse o problema do argumento. Humanizar o Superman não é torná-lo mais fraco. O colapso da sociedade kriptoniana é sempre tido como uma catástrofe em diferentes escalas, mas em que a recusa da população em ouvir os cientistas têm papel fundamental.
Em outras narrativas, como o filme de Zack Snyder, há a presença de uma população dessensibilizada, produzida em laboratório de maneira similar aos bebês de Admirável Mundo Novo. Ao viver na Terra, Kal-El encontra uma nova possibilidade, uma nova visão sobre a integração ao seu redor.
Supor que o melhor Superman é aquele que mais se distancia de seu lado apegado aos valores humanos me parece até mesmo a mesma base fundadora de propagandas fascistas em que o ideal de homem era tratado como superior àqueles ao seu redor. O homem só seria grandioso (para esses filhos da puta) se ele esmagasse os menores e mais fracos.
Quando tratamos a personalidade kriptoniana como secundária, não estamos reduzindo os poderes do Superman a um jornalista tímido cheio de amores (concretizados ou não) por sua bem sucedida colega de trabalho, estamos trabalhando um sujeito que, podendo ser um destruidor, escolheu ser bom.
Há uma citação, e não lembro onde li, que falava sobre como, no futuro, as gerações irão se lembrar de nomes como Mark Zuckerberg e Jeff Bezos não como multibilionários, simplesmente, mas como homens que, podendo tornar o mundo melhor, cederam à ganância e à corrupção de espírito.
É nessa armadilha e nesse erro no desenvolvimento de Kal-El que os os roteiristas insistem, mas o personagem não é um ser humano como nós.
As análises do Superman como um personagem sob a moral do servo ignoram o fato de que, dentre todas as escolhas, ele optou por ser um homem, e não um ícone. A moral do senhor está sim presente nele, pois com o poder em mãos, um valor de humildade foi gerado - o sentimento de servir à Terra não é por se sentir menor, é por se sentir parte.
O que torna o Superman bom não é sua força física e seus poderes surreais, é sua bondade ao aplicá-los; e o mundo bem precisava de mais sujeitos assim.
