Pular para o conteúdo principal

O mais incrível livro da Terra – Stardust, por Neil Gaiman


Esse blog fala e vai falar sempre sobre o Neil Gaiman. Neste artigo, fiquem avisados que teremos alguns spoilers à frente por necessidade de explicar a construção narrativa do mestre Gaiman. Eu vou tentar clarificar alguns pontos que acho importantes e interessantes da técnica d'O Mestre.

Começamos Stardust com a observação extremamente importante de que o primeiro capítulo inteiro não é sobre o principal. É, chocante. Tem relação com o principal? De certa forma sim. São informações vitais, mas, ao mesmo tempo, nem tão diretas ao cerne do livro. 

É um gosto a mais daquela história que gera um encanto e nos prende pela construção do mundo que o Gaiman, nos próximos capítulos narra tão habilmente.

Então, quem é o protagonista dessa história? Tristan Thorn, um rapaz do condado de Muralha, ambiente pacato e sem grandes pretensões abandonado em algum canto da Inglaterra. 

O jovem Tristan, com seus 17 anos, caixeiro de um comércio local, sonhador como todo jovem criado à base de livros de aventura e fantasia (#eusoutristan), é apaixonado pela bela Victoria Forester, a mulher mais bela daquela cidade, da região, quiçá da Inglaterra, acreditava nosso amigo Thorn.

Enfim, cortando o papo, o Tristan, como todo arquétipo de personagem heroico e idealizador de contos de fada, decide prometer várias coisas para Victória, em um discurso que mistura o cômico e o dedicado. 

O protagonista enche a boca para dizer que buscaria tudo que a amada Victória Forester quisesse: opalas e cangurus na Austrália, jade e seda na China, ouro nos EUA, uma lista sem fim. A senhorita Forester, sendo uma menina muito digna e gentil, pediu que o rapaz buscasse uma estrela.

Uma estrela que caiu do céu enquanto ele fazia sua promessa.

Tristan Thorn, do auge de seus 17 anos e feito mais de pomos-de-adão e articulações que tudo, foi. Levantou da lama onde estava ajoelhado e se preparou para a viagem.

Ele só foi. Essa parte é bem tranquila.

Agora, sobre arquétipos:

Temos um homenzinho em dívida com o pai de Tristan (que conhecemos no capítulo 1) que funciona como o sábio da floresta e ajuda o rapaz ensinando-o um pouco sobre a vida na Terra Encantada. 

Caso a Terra Encantada tenha surgido de repente para você aqui, um adicional. Esse local, que não tem mapas precisos sobre seu tamanho já que é feito de todas as terras que existiam fora dos mapas e que foram expulsos à medida em que as fronteiras do mundo eram reduzidas... bem, esse local fica do lado de lá da Muralha, com uma passagem na fronteira que dá nome à cidade sendo guardada dia e noite por guardas. 

Esses guardas só abandonam seu posto no festejo que ocorre na campina do lado de lá a cada nove anos. O pai do Tristan meio que engravidou uma mina encantada (no primeiro capítulo) e o rapaz nasceu. 

Voltando ao homenzinho: ele surge nesses dois momentos e depois é sumariamente ignorado, não por tolice do Gaiman, existem referências ao personagem posteriormente, mas, como o homenzinho peludo de cartola não é destaque na história, reduzimo-nos a acompanhar Tristan.

O rapaz, contudo, não é o único atrás da estrela.

No topo da Fortaleza da Tempestade temos os três irmãos (dois são importantes, mas vou contar como está lá). Primus, Tercius e Sétimus são os filhos do octagésimo primeiro lorde da Fortaleza da Tempestade que, em seu leito de morte, lança a pedra que dá ao herdeiro o poder de comandar o local e os arredores. 

A pedra embica pro céu depois cai longe. Os irmãos têm que achar a pedra e se matar, até que sobre só um. Tercius roda logo cedo (fruto de um vinho envenenado de Sétimus) e então Primus e Sétimus, o mais velho e o mais novo, começam um jogo de gato e rato enquanto rastreiam a pedra. Os príncipes são outro arquétipo de contos de fada, embora esses sejam um pouco fora do padrão.

Além deles, há uma bruxa. Em verdade, ela é a Bruxa das Bruxase isso significa que ela está atrás do coração da estrela para ficar jovem de novo. Essa bruxa não tem nome nem nada, ou tem e eu esqueci aqui agora, mas ela é conhecida como uma das Lilin e é extremamente poderosa e sem escrúpulos e mata várias pessoas no caminho (além de transformar um rapaz em bode). 

Bruxas, como devem imaginar, são antagonistas comuns em contos de fada, embora essa esteja atrás da estrela e não esteja relacionada à queda dela.

Somado tudo isso a gente tem uma perseguição pela pobre coitada, que é uma pobre coitada de fato, em carne e osso e muita má vontade depois que Tristan, sem o cavalheirismo demonstrado diante de Victoria Forester, amarra uma corrente de prata a ela. 

Yolanda, pois a estrela tem nome, também está amarrada ao poder da Fortaleza da Tempestade, sendo que foi esse o objeto responsável pela queda dela do céu em primeiro lugar. 

Com as tramas entrelaçadas, acompanhamos o pobre coitado do Tristan enquanto ele arrasta a manca estrela por toda a Terra Encantada de volta ao vilarejo de Muralha. Tudo para voltar até os belos olhos cinzentos de Victoria Forester, a mulher que pediu demais por um beijo de um rapazinho empolgado demais.

Como toda história de qualidade, o final não é necessariamente a parte importante. 

Especialmente se considerarmos que um dos outros muitos trabalhos de Gaiman foi Sandman, cujo enredo tinha sua principal força no arco, e não na conclusão (ele mesmo, em algumas narrativas, falou sobre isso). 

Acho que esse artigo ficou menos explicativo do que eu queria, mas é preciso ler a história e notar os pormenores e os detalhes inclusos para entender a habilidade de Neil na construção daquele conto de fadas. 

Nenhuma frase é usada por acaso, é tudo extremamente compactado de maneira poderosa. Todas as deixas e pequenos detalhes levantados encontram um significado ao longo da escrita. De uma maldição lançada pela líder das Lilin a uma bruxa menor, que não poderá ver a estrela quando a encontrar, e que acaba dando carona a Tristan (e Yolanda, sem saber), à data de libertação da mãe de Tristan, capturada pela mesma bruxa e que vive na forma de uma bela ave multicolorida, todo o universo rico do mundo além da Muralha está ali, bem entregue em seus arquétipos.

O livro é pequeno. Sério, para e vai ler. É fantástico. Eu já li umas dez vezes. Em breve uma ilustração.

As mais charmosas deste blog

Cowboy Bebop - Análise, crítica e um pouco de melancolia

 Eu nunca tinha visto Cowboy Bebop até entrar no catálogo da Netflix. A história é um desses marcos culturais que todo mundo ouve falar vez ou outra nas rodas de conversa, mas que até ter esse acesse facilitado pelas megacorporações de entretenimento sem criatividade para criar propriedade intelectual nova, na necessidade de reaproveitar o que já funcionou uma vez e pode vender de novo, apenas os dedicados e capazes de piratear tinham acesso. A frase acima ficou enorme. Eu tenho esse problema com minhas introduções. Vamos ao que interessa. Cowboy Bebop é, em resumo, a história de Spike Spiegel, um cowboy - caçador de recompensas - que atua no nosso sistema solar atrás de criminosos e gente da pior espécie. Ao lado dele, o piloto e dono da nave Bebop, Jet, um ex-policial que atuava em Europa e que abandonou a corporação depois de alguns anos e eventos em seu passado.  Depois, junta-se à dupla a criminosa Faye Valentine, gatuna que roda o sistema solar atrás de dinheiro fácil, o...

One Piece - Resumo, crítica e análise de todas as temporadas [em ordem cronológica - em construção]

 Eu assumi comigo esse desafio insano e vou cumprir pouco a pouco. Conforme eu for relembrando as sagas pelo anime, visto que já comecei a ler tem mais de oito anos, vou atualizando aqui esse raciocínio.  Para não enrolar muito algo que já vai ficar imenso, vamos lá. Resumo de One Piece Luffy D. Monkey é um jovem que aspira ser o Rei dos Piratas e para isso sai para os mares em busca do grande tesouro deixado pela lenda suprema da pirataria Roger D. Gol. Luffy comeu a Gomu Gomu no Mi, a fruta do diabo que o transformou em um homem borracha incapaz de nadar. Tendo nada além de um sonho e a capacidade de esticar o próprio corpo em várias formas, o jovem sai pelos mares atrás do One Piece - o tesouro de Roger que irá coroar quem o encontrar como o próximo Rei dos Piratas. No geral, a história vai por aí: pirata que estica roda pelos mares. Vamos agora aos detalhes e minúcias.  Crítica da Saga East Blue East Blue é a primeira saga de One Piece e trata, em termos narrativos, d...

Como escrever um livro #9: Como estruturar um capítulo de livro

O que é um capítulo? Quantas páginas tem que ter um capítulo? Para que serve um capítulo? Mil e uma maneiras de escrever um capítulo por um sujeito que já usou de três delas para três projetos diferentes. O que é um capítulo? Essencialmente, o capítulo é uma divisão narrativa utilizada para oferecer uma quebra na dinâmica do enredo atendendo a algum objetivo e dividindo tematicamente a história.  É uma mini-história dentro da história que dialoga com o resto da narrativa complementando-a diretamente ou indiretamente.  O capítulo é uma subpasta dentro de uma pasta maior, onde pode encontrar uma situação específica: fulano vai a tal lugar, um problema no mercado, pintando as paredes da casa, enfrentando o gladiador da Espanha, etc.  Quantas páginas tem que ter um capítulo? Quantas forem necessárias para sua história. O que costuma ocorrer, na verdade, é autores escolherem uma média de páginas e se manterem nelas ao longo de um mesmo livro. Isso gera conformidade para o leit...