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Mulher-Maravilha: um trabalho de ícones


É impossível não falar do novo lançamento da DC Comics para o cinema e não notar o poder que um ícone possui. Mulher-Maravilha é a representação máxima da figura feminina nos filmes de super-herói (bem como nos quadrinhos). Em retrospecto, essa observação é óbvia.

Criada em 1941 por William Marston, famoso psicólogo inventor do detector de mentiras que vivia em uma relação de poliamor com uma famosa feminista militante da época, Elizabeth Marston, o quadrinho teve um boom de vendas durante o período da Segunda Guerra Mundial. 

Vou deixar essa quantidade de informação bater primeiro antes de seguir em frente...

A ideia de Marston e sua esposa era a de valorizar a figura feminina com os mesmos ideais heroicos que os outros personagens da editora (futura DC Comics) possuíam. Para ele, uma personagem que estivesse além do humano não apenas precisaria reunir características físicas sobre-humanas, mas também um código de conduta exemplar. A Mulher-Maravilha não seria apenas uma lutadora e, motivado por seus trabalhos como psicólogo, Marston dá à personagem o Laço da Verdade.

O objetivo do Laço é revelar as intenções escondidas por trás de cada pessoa, dando a elas nenhuma escolha senão a honestidade. Mulher-Maravilha também inverte os papéis dos gêneros nas relações de vítima e salvador, Steve Trevor, par romântico da heroína, é salvo o tempo todo por Diana, alter-ego da personagem. 

Marston via um potencial educativo nas revistas, dado o alto volume de vendas para crianças e adolescentes e, através de um artigo, recebeu a atenção dos executivos da futura DC Comics para auxiliar no desenvolvimento de histórias. 

Isso demonstra a intensa produção nos quadrinhos da Mulher-Maravilha de uma mensagem de igualdade e aceitação entre gêneros, seria através dessa mensagem que a juventude americana seria alterada, pouco a pouco.

A criação de ícones que se transformam em modificadores sociais e éticos não é novidade, artistas e celebridades quando se destacam acabam se transformando em padrões de comportamentos novos a serem seguidos. 

Numa sociedade em que qualquer um pode ser relevante através de fotos, vídeos ou tweets engraçadinhos, ser alguém é extremamente importante. O problema é que aqueles que despontam nem sempre tem algo a dizer. 

Veicular uma mensagem em meios de massa é tarefa árdua: é necessário vender para atender às demandas do sistema capitalista (e continuar com seu papel de comunicador) assim como é necessário informar algo substantivo para se diferenciar da maçaroca homogênea das publicações de mass media tradicionais.

Olhe para as redes sociais do momento e contabilize os seguidores de pessoas que não tem nada a dizer. Observe as maiores bilheterias do cinema dos últimos anos (até o momento de produção original deste artigo, Mulher-Maravilha ainda não havia chegado aos cinemas e o impacto de Pantera Negra estava para ser sentido). 

Há pouco que seja relevante ali, o produto das massas é como um fast-food, sem conteúdo, puro preenchimento de tempo - Scorcese falou isso melhor que eu, inclusive. Os best-sellers do momento se mostram vazios e os escritores considerados gênios em seu tempo não o são, de fato. Onde estão os modelos de comportamento na grande mídia que guiam os jovens? (Deveria haver um modelo na grande mídia? O quão errado é pedir algo ao Mercado?)

Longe de ser um texto puritano, há de se contrargumentar aqui que, de certa forma (ou ao menos, desde a revolução industrial), sempre foi assim. Os produtos de massa são desprovidos de significado, mas para Marston, esses grandes veículos eram formas de hackear o sistema e utilizá-lo a favor de uma iniciativa educativa, ao menos. 

Longe de haver um incentivo de uma arte ou entretenimento propagandista apenas (como muito o foi o quadrinho da Marvel Comics, Capitão América), aqui se propõe uma reavaliação dos ícones e seu poder na construção de um pensamento diferente.

Depois da Era de Prata, algumas décadas após a criação de Marson ter sido esvaziada de seu valor original (a Mulher-Maravilha chegou, inclusive, a assumir papel doméstico em algumas serializações, algo que seria extremamente ofensivo caso os criadores da heroína estivessem vivos para acompanhar a transformação), os roteiristas saíram em busca de um aprofundamento em temas mais humanos e densos. 

Watchmen, V de Vingança, Sandman, O Cavaleiro das Trevas, todos esses foram títulos lançados em meados da década de oitenta, sucesso de crítica e público (sendo Watchmen considerado a melhor história em quadrinhos de todos os tempos) que contaram com o zeitgeist do momento de transformação para abrir espaço naquela mídia.

Os ícones voltaram a exercer poder nesse período. Depois de um longo tempo sofrendo censura, as editoras finalmente podiam voltar a falar sobre os assuntos que, direta ou indiretamente, lidavam com a vida do cidadão americano. Drogas, violência, criminalidade são assuntos recorrentes nessa nova fase.

Mas essa volta a um maior contato com a realidade não foi para todos.

Um personagem que permaneceu nas sombras foi a Mulher-Maravilha. A criação de Marston passou por tantas mudanças, cortes, trocas de identidade, habilidades, funções e afins que quase perdeu sua identidade inicial. Com um certo trabalho, foi possível manter a postura heroica e feminina da personagem, mas dentre os títulos mais famosos das editoras, nenhum é dela.

O sonho inicial de Marston de um produto cultural para as massas que fosse educativo persiste em ideologia, porque na prática está longe do ideal. Quadrinhos independentes tentam entrar no mercado através de um conteúdo mais sólido, mas é difícil combater as editoras grandes, o crowdfunding vem se mostrando uma saída para dar voz a essa geração mais consciente, mas é difícil fazer a sua hamburgueria artesanal vender mais que a lanchonete do palhaço.

Mulher-Maravilha surgiu para moldar uma juventude que pudesse se tornar mais consciente da necessidade de igualdade entre sexos (durante a Segunda Guerra), mas se o quadrinho se perdeu durante o tempo. De certa forma, o retorno da personagem veio pelas mãos de Patty Jenkins, diretora responsável pelo filme da heroína que parece retomar parte desse ar positivo.

A obra cinematográfica tem uma visão otimista do mundo. Não importa o quão ruim as coisas estejam, a unificação e a tolerância são o caminho. No filme, o amor é tido como a solução interna nas pessoas para resolver os problemas. 

Minha única crítica é que a solução final contradiz isso em parte (culpa do roteiro original de Zack Snyder, que sobreviveu em pedaços ao longo da obra final). Derrotar o deus da guerra através de uma luta em que quem bate mais forte vence é contradizer tudo aquilo apresentado anteriormente no filme e se esquecer da obra de Marston por princípio.

Se para o psicólogo o amor deveria vencer, e para isso seria preciso um arauto, um mensageiro desses ideais para o mundo, tanto dos quadrinhos quanto real, então o fim do filme parece se esquecer disso rapidamente. 

É claro que isso não anula a beleza da obra. Na verdade, esse foi um dos meus filmes de herói favoritos justamente pela premissa diferente que se apresenta. Diana, através de uma interpretação adequada de Gal Gadot, é a síntese dos sentimentos humanos puros, quase ingênuos como quando ela primeiro chega ao front. 

A cena de avanço pela linha de frente possui ainda uma saída poética. Em inglês, a terra de ninguém, espaço entre trincheiras na Primeira Guerra, era chamada de No Man's Land. Uma adaptação rudimentar seria Terra de Nenhum Homem. 

Diana não é um homem, é uma amazona, uma guerreira livre dos vícios e do ódio naquela guerra, é através da liderança dela que os ingleses conseguem avançar e conquistar aquele trecho. Essa cena, ainda que em um contexto bélico (que a co-criadora Elizabeth Marson talvez desaprovasse) sintetiza bem a iconografia da heroína. 

Uma das grandes perdas na reformulação da DC durante os Novos 52 foi, inclusive, a mudança na origem de Diana. No roteiro original dos Marson, a Mulher-Maravilha nasce do barro, acumulando as dores e sofrimentos das mulheres através de um sopro de vida dado por Zeus e sua mãe, a rainha Hipólita. Contudo, ela reuniria em si também a glória e o poder de todas as mulheres do mundo.

Na nova versão, Diana é uma semideusa, filha do encontro carnal entre Zeus e Hipólita, com a origem simbólica apagada para uma versão mais palatável ao público. 

Enquanto o segundo filme não sai, eu fico aqui na expectativa de que novas obras surjam com esse mesmo impacto. 

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