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- A primeira vez que vi neve foi bonita, mas nem tanto assim – uma pausa para tragar o cigarro. – É, isso é bom.
Um gole no café e um olhar pela janela.
- Só poderia ser um dia de inverno agora.
Digitou mais algumas frases avulsas até se
perceber repetindo alguns clichês. Era difícil escrever um texto de amor sem
recair em clichês, essas muletas narrativas tão sedutoras.
- A primeira vez que andei de montanha-russa foi
emocionante, mas meu coração parou de disparar em poucos segundos – outro trago
no cigarro. – Talvez uma quebra aqui – outro trago. – Vou repetir essa
estrutura mais uma vez nesse parágrafo e outra mais pro final.
- A primeira vez que beijei foi exclusivamente
esquisita, mas ficou na memória.
Outro gole de café porque o cigarro queimava a
garganta. Era um mentolado, com filtro especial, mas não adiantava, ainda ardia
a garganta. Pensou em xingar mas achou que seria deselegante, xingar no texto,
obviamente. Isso porque fora das páginas xingava o tempo todo, desse jeito sujo
de quem não tem perspectiva, as pessoas gostavam disso – achava ele.
- Muito me lembro das minhas primeiras vezes, e
não falo de sexo porque essa é outra história.
No caso, nunca fizeram juntos. Nunca fez com ninguém,
na verdade, mas era preciso manter as aparências.
- Mas essas primeiras vezes da vida costumam se
apagar pela rotina, pelas coisas que com seu peso esmagam as boas ou só
marcantes experiências. Tremo só de pensar em como seria ter todas as primeiras
experiências da vida daqui pra frente contigo, em como seria recomeçar o que já
vinha fazendo por conta própria, mas agora contigo em meus abraços diante de uma
televisão ligada pelo ruído de fundo.
O cigarro apagou e desistiu de reacender,
simplesmente não valia a cena. Além disso, estava em casa e a mãe sentiria o
cheiro. Não valia o teatro sem um público. Pensou em abrir a janela, mas estava muito quente e preferia o
ar-condicionado ligado, mesmo que talvez o cheiro de cigarro impregnasse no
quarto. Antes de recomeçar, ficou em dúvida se manteria abraço ou usaria braços. Ficou com a primeira versão, era necessário sustentar a leveza de um primeiro rascunho.
- Como seria rever minha série favorita contigo?
Como seria ir ao meu parque favorito contigo? Seria a nossa primeira vez ou
apenas outra repetição? O amor dá continuidade às coisas com uma diferente
visão ou apaga tudo antes em nossa cabeça? Nosso sexo seria como se fosse a
primeira vez?
Excitação. Não pôde se controlar. Respirou fundo e
tentou retomar o raciocínio de antes. Não poderia parar ali, no meio do texto,
para se resolver. Controlou a libido, evitou pensar em sexo. Mais um gole de café para distrair os lábios.
- Tomaríamos sorvete no parque e o chocolate teria
um novo gosto velho de quando primeiro o experimentei em casa, aos cinco anos,
junto de minha mãe? – O café esfriava. Bebeu o que tinha sobrado no copo. Gelado. Fez uma careta e prosseguiu. – E nossas brigas? Seriam terríveis como as
primeiras brigas que temos em nossa infância? Faríamos as pazes como se fosse a
primeira vez que brigássemos?
Por motivo nenhum o coração se apertou,
convencia-se de sua profundidade e emoção. Aquilo era realmente bom. Nem sequer questionava se as conjugações verbais estavam certas. A emoção era mais importante.
- Será que nossas brigas terão o mesmo impacto que
têm agora? Se eu fizesse tudo pela primeira vez, ainda seria capaz de te amar
agora? Tendo amado tanto, não será isso responsável por me fazer abrir meus
olhos para ti? Honestamente, eu não sei.
Aquele último ponto final foi quase definitivo.
Lembrou-se, contudo, que haviam muitas perguntas, nenhuma resposta decente e
que o texto ainda tinha pouquíssimas palavras. Precisaria improvisar.
- Acho que penso em tudo isso, faço todas essas
perguntas – foi em busca de café ou cigarro mas não tinha mais nada por ali. O
isqueiro estava longe. – Acho que penso em tudo isso, faço todas essas
perguntas – repetiu-se – porque quando te beijei da primeira vez foi como se
tivesse amado alguém, me entregado a alguém, pela primeira vez. Foi bonito como
nenhum um dia de neve será sem você, foi emocionante como montanhas-russas
nunca serão.
Estava chegando lá, mas ainda não tinha uma frase de efeito, um encerramento
que fizesse daquilo impactante o suficiente para as pessoas se lembrarem vinte
segundos depois de terem lido. Seria necessário mais emoção para compartilharem o texto. Encarou a tela alguns segundos,
relendo o que já havia escrito. Achou-se brilhante, verdadeiramente à frente dos outros. Ninguém escrevia textos de amor assim.
- Amar é como esquecer tudo para ter a vida pela
primeira vez uma segunda vez. Foi te amando que descobri isso, assim como redescobri em mim as
sensações e gostos que antes me faziam tão feliz. Acima de tudo é preciso
amar-te – achava que ficaria bom assim no final – para que possa reaprender a
viver o que esqueci amando outras pessoas.
Pensou em bater palmas no quarto, só. Controlou o impulso no último segundo, o ego tendo sido vencido pela necessidade de finalizar a produção do pequeno conto de amor. E, tendo escrito isso para ninguém em especial, escolheu uma foto em preto-e-branco e publicou em seu blog, para ter seu texto lido por inúmeras pessoas que veriam naquilo um significado especial não planejado.
Enquanto planejava o próximo material e limpava as
cinzas de cigarro da roupa, tossindo só com a lembrança, releu alguns
comentários anônimos elogiando o próprio trabalho. Não mais diferenciava os
usuários falsos dos verdadeiros, o que importava era o volume.
Como tudo, a literatura que fazia era um show de fumaça e atuação.