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Como escrever um livro #1: O protagonista

Um bom protagonista é aquele que é diferente do leitor, mas que inspira ou espelha. Para escrever um bom livro você precisa de um bom protagonista - mesmo que ele não seja uma pessoa.


O que faz um herói?

Todo mundo fala da jornada do herói, e eu vou deixar linkado aqui e aqui alguns artigos mais voltados para o assunto. E vou evitar isso por dois motivos: o primeiro é que, como já existem artigos mais interessantes sobre a coisa, é redundante produzir mais um. E o segundo motivo é que eu não gosto da jornada do herói. 

“Como assim? Você pede para ler a jornada do herói e depois ignora ela?”

Mais ou menos. 

Veja bem, todos os grandes bestsellers infanto-juvenis dos últimos 20 anos ou mais usam a mesma construção de roteiro. Dos últimos 40 anos até, se você considerar Star Wars. 

E ainda que seja uma fórmula de fácil assimilação e, muitas vezes, sucesso estrondoso e quase imediato, a Jornada do Herói já foi contada. Milhares de vezes. Das aventuras mitológicas à cultura pop. As pessoas não se cansam de ver o mesmo ciclo de aprendizado e desenvolvimento de personagem. 

Mas não quer dizer que, só porque seu público não se cansa, que você como autor deva se limitar a essa fórmula. 

Além da jornada do herói, vou compartilhar algumas dicas de desenvolvimento de roteiro e criação de personagens. 

Crie um dilema

O herói sofre de um problema que ele é incapaz de reconhecer. Ou ele é teimoso demais, ou é paciente demais, ou é nervoso demais, ou nunca toma uma decisão. Ao longo da narrativa, inúmeros gatilhos vão sendo disparados, fazendo com que ele seja obrigado a mudar, gradativamente, seu comportamento. 

Por fim, em um momento de catarse (e vamos falar sobre a catarse ao final do texto) ele finalmente é obrigado a tomar uma decisão que, no início da história, o faria tomar uma atitude completamente contrária àquela. 

Essa transformação guia o leitor, e também é uma forma de moldar a sua história. 

Os personagens secundários

Essa lição eu tomei diretamente do cinema, nesse vídeo que deixo linkado aqui, do Lessons frmo the Screenplay. Na verdade, se você quer mais dicas além das que eu vou publicar nas próximas semanas, confira o canal do Lessons from the Screenplay, ele tem sempre bons insights, embora voltados para cinema. 

A ideia de ter personagens secundários nas histórias é muito interessante. Eles podem ser tudo o que seu protagonista não é, e podem ir muito além, num espaço de tempo pequeno. Contudo, sua participação na narrativa deve acrescentar ao conceito, e não pode derivar dele. 

O melhor exemplo que posso encontrar agora é o meu próprio livro: A Pergunta no Espelho. Não necessariamente porque ele é o melhor exemplo no mercado, mas talvez porque seja o mais direto. Falando um pouco sobre a narrativa, toda a história se desenvolve sobre a ideia de identidade, e a busca por uma identidade que Carlos, o protagonista, se propõe a fazer, em seus termos. 

Ao mesmo tempo, três capítulos extras que desenvolvi, falam da identidade de alguns personagens secundários, enquanto ampliam e melhoram a história: Saulo trabalha conceitos de brasilidade e qual o perfil do “brasileiro verdadeiro”; o capítulo de Olívia fala da perspectiva da identidade da mulher em uma sociedade extremamente masculina e agressiva, especialmente no contexto dela, enquanto prostituta; Hernandez, por fim, tem um capítulo dedicado à pluralidade da sua persona, e da identidade, enquanto ator, e é uma inserção que diz muito sobre como, apesar de tudo, todas as identidades ainda cabem na primeira, ele. 

Com isso, fica mais fácil se aproximar e abordar o dilema de Carlos, quando temos como comparação outros personagens enfrentando a mesma jornada, em pontos distintos de sua conclusão. Olívia e Hernandez são os mais bem resolvidos, e enfrentam o mundo que surge diante de si a partir disso. Saulo está a meio caminho. Carlos dá seus primeiros passos, e você pode prever certos comportamentos e decisões sabendo sobre o que os outros personagens fizeram. 

É preciso extravasar

Catarse é um conceito do qual todo mundo se aproveita em algum momento, especialmente gurus e espiritualistas. Não vou entrar nesse mérito, vamos ao conceito original de catarse. 

Para Aristóteles, na sua obra Poética, em que analisa o teatro grego, a catarse era um momento de liberação em que protagonista e público, juntos, experimentavam uma purificação de sentimentos. 

Pense em tudo que falei até aqui: a apresentação do dilema do personagem ao longo da história, os mesmo dilema surgindo nos personagens secundários… tudo isso se encerra na catarse, quando o dilema surge e é confrontado uma última vez. 

Esse último momento de desafio pessoal, quando bem construído, leva todo o público junto. É um momento de liberação psicológica em que há, então, um fim para aquele drama. 

E, falando no drama, essa é a minha última dica de hoje.

Toda história precisa de um tema

A Pergunta no Espelho é um livro sobre identidades, Réquiem para um Amor é um livro sobre aceitação de sentimentos, A Pedra no Caminho é um conto sobre problemas. 

Toda história precisa de um tema, se quer saber como escrever um livro, essa é minha dica final: defina um tema, crie um dilema para seu protagonista a partir daí, trabalhe esse dilema ao longo da narrativa, incluindo seus personagens secundários nisso, e encerra com uma catarse (sem precisar ser uma super dramática), onde o tema e o dilema são concluídos. 

Boa escrita, até o próximo post.

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