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Okay, essa parece uma pergunta maluca, mas me acompanha.
Eu estava lá vendo Comedians In Cars Getting Coffee porque tem tudo que gosto: café e comédia. Não sou tão fã de carros. E no meio de uma das entrevistas, o Jerry Seinfeld, daquele jeito dele meio indignado, levantou um ponto interessante: “Por que um cara que pinta um coelho é um artista e eu não? O coelho já existe, eu criei essas piadas do zero.”
Apesar de um exagero no argumento (o famoso reductio ad absurdum), ele tem um ponto de debate interessante. Vamos a ele então:
O que é arte?
Essa é a pior pergunta para começar qualquer debate, porque é um debate em si. Eu já cheguei a me perguntar aqui se me considerava um artista, até. Mas, vamos tomar o seguinte pressuposto: arte é um processo de criação proposital, uma intervenção com significados e símbolos próprios.
Não é a melhor definição do mundo, mas exclui acidentes criativos, ex.: um raio parte uma árvore ao meio e se torna arte.
Também exclui o que, na minha opinião, vem sendo a parte mais contraproducente da arte contemporânea: o abstrativismo conceitual ao qual muitos artistas se apegam com vigor. Reforço com vigor que esta é a minha opinião, e não se trata da verdade.
Já defendi em diversos artigos o que considero arte e o que não considero aqui no blog. Este talvez seja o melhor artigo dissociando entretenimento de arte - antes mesmo do Scorcese falar as mesmas coisas.
O ponto aqui é outro, e eu acredito que seja melhor pular para ele de uma vez antes que me enrole muito aqui.
Comédia é arte?
Existem vários argumentos para eu afirmar que sim.
Óbvio que isso sozinho não é parâmetro de validade nenhum, e por isso devemos avaliar a força dos argumentos em si. Vamos ao primeiro.
Se entendermos comédia como uma subcategoria do teatro, automaticamente ela se torna arte, pois o teatro é um gênero artístico. Ou seja, se tratarmos comédia do ponto de vista da apresentação, do espetáculo, e aqui são invocadas inúmeras imagens de palhaços em seus carros apertados correndo pelo picadeiro, a comédia é arte.
Porém, se quisermos tratar a comédia como gênero artístico individual, precisamos determinar que características a distinguem de um “adjetivo artístico”, e vamos chamar assim todos os subgêneros que impõem nova condição a uma expressão artística pré-existente.
Apesar de confuso, fica mais fácil ao exemplificar: se cinema é arte, um filme de comédia não deixa de ser arte. Ou seja, a comédia não qualifica mais nem menos a obra.
Agora, o questionamento é: a comédia pode existir por conta própria enquanto arte?
Levantando o primeiro ponto do artigo sobre o que é arte, do ponto de vista exclusivamente criativo, não há razões para negar. Contudo, quando Seinfeld levanta esse argumento, ele se refere especificamente aos comediantes de stand-up.
Sendo bem honesto, não existem diferenças consideráveis entre um monólogo de stand-up e um monólogo teatral dramático para oferecer aqui um contra-argumento. A comédia e a tragédia, afinal, são os princípios básicos do teatro, e todas as derivações estilísticas sobre o palco nascem daí.
Aqui, então, eu volto outra vez ao meu primeiro ponto. Se a comédia existir como qualificador de um texto artístico, a resposta será sim novamente.
No aspecto criativo, a comédia é um texto com um objetivo específico, e sendo bem classicista aqui (cagando regra da pior maneira), é possível até mesmo definir o mérito artístico em termos de qualidade de um texto por sua atemporalidade (capacidade do discurso se manter atual) e seu impacto (capacidade do discurso agradar, no caso fazer rir, o público).
Ou seja, um texto de humor que persiste ao longo do tempo e que segue sendo engraçado seria um excelente texto de humor e uma obra de arte, se assim for, da melhor espécie.
Esse pode parecer um debate furado se considerarmos que não se vê por aí muitos artigos afirmando o contrário, contudo, eu gostaria também de ressaltar a maneira como sutilmente esse discurso de que comédia não é arte persiste através de premiações generalistas.
Exceto prêmios com categorias específicas para cada gênero, como o Emmy, que tem infinitas estatuetas para distribuir anualmente, premiações como o Oscar tendem a priorizar filmes com caráter dramático.
É como se fazer chorar fosse por princípio melhor que fazer rir. Mas em que categoria você poderia colocar um filme de comédia ou um roteiro de stand-up? Melhor roteiro original? Eu me recuso a acreditar que Make Happy do Bo Burnham mereça menos destaque que filmes de super-herói por aí.
Se a comédia é um gênero artístico a parte, com o stand-up sendo uma vertente paralela ao teatro, em que a função do personagem é quase completamente despida (já que o autor, ainda que esteja performando sua obra, nunca será ele mesmo em sua completa dimensão, sendo uma versão bidimensional apresentada ao público), os critérios de avaliação seguem sendo os mesmos que aqueles para o teatro.
O público reage ao texto? Essa reação é planejada/intencional (eles riem quando tem que rir etc.)? O texto resiste ao caráter do tempo (é uma escrita universal)? Esses fatores todos podem ser usados para qualquer outro material artístico e, por isso, uso o critério de avaliação como segundo argumento para o caso.
De qualquer modo, me diz o que você acha aí embaixo. Escrever num blog pode ser quieto demais.
Um abraço.