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Senhor dos Anéis é uma dessas obras da literatura indispensáveis no currículo de cada um. Isso porque um dos pontos fortes mais interessantes do Tolkien é a sua capacidade como linguista. Para não perder o foco, preciso dizer logo de cara que o texto de hoje é sobre a morte de Boromir.
Para quem ainda não leu ou viu os filmes (se isso
for possível), eu recomendo conhecer o material antes. Além de alguns spoilers
(de um filme de 15 anos atrás e um livro de 60), meu objetivo aqui é iluminar
alguns detalhes da narrativa que me ocorreram na última visita ao mundo
tolkiano.
Quando a Sociedade do Anel se forma (primeiro
livro e primeiro filme respectivamente), são nove os seus membros: Aragorn
(Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom), Gimli (John Rhys-Davies), Gandalf
(Ian McKellen), Merry (Dominic Monaghan), Pippin (Billy Boyd), Frodo (Elijah
Wood), Sam (Sean Astin) e Boromir, representado pelo ator que mais morre em
seus papéis, Sean Bean.
Apesar de ter um trabalho de construção literária,
na parte mais bruta da coisa, a linguagem excelente, da maneira como eu vejo,
os personagens de Tolkien são, em sua maioria, planos.
Antes de serem abertas quaisquer críticas às
minhas críticas (uma meta-crítica?) é preciso lembrar que precisamos ser mais
duros com os clássicos, afinal, eles já estão consolidados.
Aragorn é o rei prometido, o ranger do grupo, sua
única dúvida e questão maior é a ascensão ao trono, tema que, ao menos nos
filmes, passa a ser aceito com tranquilidade em dado momento.
Legolas, interpretado por Orlando Bloom de lycra satisfazendo os
fetiches do Peter Jackson por elfos, é um personagem sem grandes aspirações que
entra na sociedade, nos filmes, quase como a cota élfica de participação. O
mesmo ocorre com Gimli, o anão, que está ali como o estereótipo do baixinho raivoso com machados.
O livro oferece explicações mais detalhadas, mas
ambos estão ali, essencialmente, como representantes de suas respectivas raças.
Frodo é o portador do anel, personagem central da
história. Sam é o amigo/servo/quase amante de Frodo, verdadeiro herói na
jornada (algo assumido por Tolkien em alguma entrevista ou carta). É por conta
de Sam que a Terra-média tem um pouco de paz.
Merry e Pippin são, quando muito, alívio cômico e
um núcleo a mais para ser explorado, abrindo novas vertentes narrativas durante a Guerra do Anel.
Gandalf é o mago e conselheiro, guia do grupo
através da jornada. Excelente forma de explicar as coisas também. Um bom guia e mestre. Surge quando precisam, some quando necessário.
Depois de tantos personagens finalmente chegamos a
Boromir. Ele é, certamente, o mais humano, o mais identificável, mesmo que seus
motivos sejam confusos a primeira vista. É essa confusão que me atrai como leitor e telespectador, ele não parece uma
máquina, não é plano. As pessoas não são planas, não são simples, por mais que
muitas vezes queiramos simplificá-las e reduzi-las.
Um pequeno recorte da história. Quando Sauron,
vilão da história, é derrotado pela primeira vez, seu anel sobrevive e cai nas
mãos de Isildur, rei humano que não resiste à tentação e fica com o mimo do
vilão pra si. Isildur morre na estrada e não deixa descendentes diretos.
A linhagem de Gondor, onde ele governava, era uma
das poucas remanescentes de Númenor, a versão tolkiana de Atlântida. Gondor,
sem rei, passa a ser governada por regentes, passados de geração em geração.
Boromir é filho do atual regente, e fica claro que ele está para se tornar o
próximo por escolha do pai.
Vendo seu povo sofrer pelas mãos dos orcs e anos
de descaso de uma realeza inexistente, a primeira impressão que se tem de
Boromir é a de um personagem amargurado, desacreditado, que quer de todas as
formas salvar seu povo, ele é obcecado pela sobrevivência de Gondor, sua cidade foi a primeira atingida pela segunda vinda de Sauron e seu exército de orcs. Boromir faria qualquer coisa para salvar sua pátria, inclusive usar o Um Anel, mimo de
Sauron, para enfrentar o vilão.
Essa primeira característica praticamente
transforma o protetor de Gondor em um antagonista dentro da Sociedade, ele se
opõe à destruição do anel, objetivo do grupo. Mas Boromir não é uma pessoa
ruim, ou odeia o grupo, só considera a missão um fracasso, afinal “one does not simply walks into Mordor”.
O personagem se conecta especialmente com Merry e
Pippin, enquanto Legolas, Gimli, Gandalf e Aragorn fazem o quarteto high skills
e Frodo e Sam caminham de mãos dadas pela Terra Média admirando a paisagem.
Talvez não
de mãos dadas, mas é quase isso. O Sam praticamente arrasta o cara pelo braço ao redor da aventura, mas vou voltar ao Boromir...
O ponto de transição e dilema, o
clímax do primeiro filme, é quando, depois de passarem pela floresta de
Lothórien e encontrar com Galadriel (Cate Blanchett), o grupo se vê enfrentando
alguns orcs. Tem bem mais detalhes que isso, mas nesse ponto da história
Gandalf está morto e o grupo, desmotivado.
Acampando na floresta e esperando os orcs passarem
pela outra margem, o grupo se acomoda enquanto Frodo sai pra buscar lenha.
Boromir vai junto, na surdina, quando encontra o hobbit.
Galadriel já havia alertado Frodo quanto a Boromir, mas por algum motivo a maluca do caralho fez o humano acreditar que Gondor cairia em breve. Dessa forma, o guerreiro tinha ainda mais convicção de que precisaria dos poderes do anel para salvar
sua cidade e de que a missão de destruição seria uma perda de tempo.
Frodo e Boromir discutem, o Um Anel exerce sua influência maligna (afinal, o mimo de Sauron tem poderes e vontade própria) e o humano cai em tentação (sem se livrar do mal, amém).
Frodo foge, chegam os orcs, confusão generalizada.
Em dado momento, o guerreiro cai em si e percebe o
que fez. Decepcionado, desacreditado, pessimista e amargurado, Boromir vai atrás de Frodo para
pedir desculpas.
O que ele encontra, no entanto, é uma grande
quantidade de orcs geneticamente modificados (sua avó não avisou sobre
transgênicos? Pois é, eles matam). Merry e Pippin estavam por perto e,
claramente, em apuros, já que alívio cômico não luta diretamente (para ser justo, eles distraíram os orcs para deixar Frodo seguir correndo e fugir).
Boromir começa a enfrentar os orcs, ele volta a
ser o guerreiro de antes, o protetor de Gondor, futuro regente. Ele saca sua espada e começa a cortar os inimigos, um a um.
Os orcs o cercam, Merry e Pippin tentam ajudar,
mas não acrescentam muito, Frodo está fugindo e Sam vai atrás dele; Legolas,
Gimli e Aragorn enfrentam orcs em outro ponto. É quando Boromir sopra a corneta
prateada de Gondor e pede ajuda à Sociedade do Anel, os orcs são numerosos demais para ele sozinho. Ainda que seja um excelente guerreiro, esses inimigos são mais fortes, mais rápidos, mais inteligentes. É necessário proteger os pequenos, é necessário proteger o portador do Um Anel até que ele chegue à Montanha da Perdição. Essa é a única maneira de salvar Gondor, de realmente salvar Gondor.
A batalha é a redenção para o personagem. Por
toda a narrativa ele se mostrou o mais desacreditado, o mais influenciável pelo
anel, o mais “fraco”. A verdade é que Boromir era o mais humano, com dúvidas,
medos e uma carga de insegurança pelo futuro do seu povo. Isso não isenta ele
das falhas e erros, mas justifica as escolhas que fez - essa é uma boa construção de personagem.
Os orcs o sobrepõem, ele é acertado por
flechas do capitão dos Uruk-Hai. Boromir cai no chão, a corneta se parte em duas. Merry e Pippin são
capturados pelas criaturas. Boromir está para ser decapitado quando o resto da
comitiva se aproxima, finalmente.
Morrendo, a última coisa que o personagem vê é Aragorn, a esperança para Gondor, o rei legítimo. A
morte de Boromir é trágica, ele vê diante de si o rei legítimo de uma cidade
que até então era responsabilidade dele. Ainda há uma chance, ele ainda pode contar com Aragorn para carregar sua vontade e proteger o seu povo, mas Boromir falhou com a Sociedade e
caiu em tentação.
O guerreiro morre com espada em mãos, acreditando que o futuro será desastroso para todos eles.
Ninguém mais no livro tem jornada similar.
Frodo e
Sam sofrem bastante, mas o papel deles é esse, não dão para trás. Gandalf volta
dos mortos por motivos de contatos com Ilúvatar. Merry e Pippin ficam isentos
de grandes dilemas. Aragorn, Legolas e Gimli matam muitos orcs.
Boromir é o único a morrer (de morte matada), mas é também o
personagem que, em menor tempo de história, possui um desenvolvimento mais
completo. Ele teme, odeia, ama, se arrepende, morre desacreditado em si mesmo,
mas vê em Aragorn a esperança de Gondor.
Por esses motivos eu acho a morte de Boromir um momento tão significativo e marcante no Senhor dos Anéis, além de um excelente exemplo de construção de personagem que Tolkien oferece.
Obs.: para os fãs mais tradicionais, Boromir
enfrenta Uruk-hais, os orcs misturados com humanos.
Obs.2: faltam bastante detalhes, mas precisei dar highlights na narrativa, que é muito longa.
