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Fullmetal Alchemist me chamou a atenção pela primeira vez na RedeTV. Depois eu fui ler online. Aí eu comprei os quadrinhos. Até o momento, tenho até o volume 26 da versão antiga distribuída pela JBC Mangás, e já devo ter lido umas 10 vezes esses 26 volumes.
A narrativa das histórias orientais passam por um processo engraçado quando elas ficam ocidentalizadas. É um caminho do meio que une dois povos e faz muito dinheiro.
A história de Fullmetal Alchemist segue os irmãos Elric na busca pela pedra filosofal e a capacidade de trazerem seus corpos de volta.
Tudo começa quando os irmãos, motivados pela perda de sua mãe, tentam trazê-la de volta e acabam sofrendo um acidente. A partir daí, Edward, o mais velho, entra para os alquimistas do exército com 12 anos e ganha a alcunha de Alquimista de Aço, que dá nome à história, e passa a usar os recursos do governo para procurar por uma resposta.
Ao tentarem trazer sua mãe de volta, os irmãos foram mutilados e Al, o mais novo, perdeu todo o corpo, tendo a alma fixada em uma armadura.
Fullmetal não é o estilo de mangá (shonen, histórias para adolescentes, geralmente voltada para o público masculino) da linha de Dragon Ball, Bleach, One Piece, Naruto ou One Punch Man. Apesar da história apresentar algumas lutas bem interessantes, o foco é sempre na jornada dos irmãos, em seus laços, e na busca pela pedra filosofal.
Mas essa não é uma busca que eles fizeram sozinhos.
Na idade média do nosso mundo real sem graça, e até o surgimento do método científico como temos hoje, a busca pela pedra filosofal vinha com a promessa de transformar chumbo em ouro, descobrir o elixir da vida e transmutar objetos.
Fullmetal adapta essa narrativa para um mundo semi-ficcional em que a alquimia é uma ciência da transformação com regras e aplicações científicas, médicas e militares. Mais interessante é a diferença na aplicação entre Amestris, uma Alemanha no período entreguerras, e os orientais de Xing. Amestris usa a alquimia para fins militares e bélicos, enquanto o império oriental avança na medicina e em um lado mais espiritual.
De certa forma, a série espelha elementos e extrapola na narrativa ficcional a possibilidade da alquimia para trabalhar questões espirituais e individuais.
O que significa ser humano? O conceito de Eu, quando Alphonse é transmutado em uma armadura que não sente dor, não sente fome, não sente frio e não dorme ainda se aplica? Ele ainda é humano por ter alma, mesmo sem espírito e corpo?
Sendo a alquimia um processo científico que nos liga enquanto indivíduos a algo maior, à chamada Verdade, na série, que não passa de um dos aspectos do que seria deus, então até onde somos indivíduos e não partes de um imenso todo?
A linha tênue da alquimia do mundo real com a feitiçaria e o misticismo também existe em Fullmetal Alchemist, mas as possibilidades são diferentes. No nosso mundo, a alquimia deu origem à ciência, que de certa forma desbancou qualquer metafísica possível, mas em Fullmetal a ascensão da alquimia possibilitou uma aproximação com o divino.
Aqueles que veem a Verdade não precisam mais dos círculos de transmutação, imensos cálculos na forma de símbolos esotéricos, eles fazem alquimia unindo a palma das mãos, e quando fazem isso parecem rezar a um deus que muitas vezes desconsideram.
A alquimia de Fullmetal então converge com a religião numa aplicação prática, o processo é pensado de maneira quase divina, onde é possível a criação de matéria e até mesmo a vida - embora essa última seja um tabu para o governo de Amestris. É o homem no papel de deus com seu poder - uma abordagem que também tem sua validade no nosso mundo real.
E enquanto o homem se põe nesse papel, somos obrigados a questionar a validade das ações. Fullmetal é cheio de momentos marcantes em que decisões duras devem ser tomadas.
Soul Tucker transforma a própria filha em uma quimera a título de pesquisa para manter sua licença como alquimista federal, isso depois de ter tomado a mesma atitude com a esposa. Mustang é um coronel marcado por memórias da guerra de Ishbal, um povo marcado por forte expressão religiosa massacrado pelos amestrinos. É uma reprodução do Holocausto em páginas que não perde o impacto. A alquimia na história de Hiromi Arawaka foi a ciência dos nazistas usada na história para exterminar um povo desarmado.
Uma das cenas mais marcantes da guerra é quando Armstrong, personagem na série que até então era retratado como alegre e positivo, aparece como responsável pelo paredão de execuções de ishbalianos inocentes. O militar se esconde atrás do próprio muro, em choque, enquanto ouve os gritos das vidas sendo tiradas a poucos centímetros de si.
Depois disso, Armstrong desenvolve transtorno pós-traumático e é afastado do campo de batalha. Foi seu espírito bondoso que fez com que sua psique quebrasse, mas isso não o impediu de seguir as ordens em um primeiro momento.
Fullmetal Alchemist não se exime de tratar do genocídio e de fazer com que seus personagens reconheçam os crimes cometidos. Mustang, alquimista de fogo que controla explosões com sua luva, no entanto, representa um outro lado nessa discussão.
Ainda que ele seja uma das pontes para a a reinserção do povo ishbaliano sobrevivente, ao final da obra, na sociedade amestrina, ele foi também um dos principais responsáveis pelo massacre, visto que sua alquimia possui aplicações, ao menos no que é visto, estritamente bélicas.
Curiosamente, a posição de reconhecimento dos horrores da guerra em Fullmetal é oposta em relação à do Japão no mundo real, que no período da Segunda Guerra Mundial cometeu alguns dos crimes de guerra mais terríveis do período enquanto membro do Eixo. Muito do que foi feito pelo exército japonês na época ainda não é reconhecido pelo governo japonês atual e pela população, inclusive.
Voltando à Fullmetal, na narrativa principal, os irmãos Elric precisam decidir se devem ou não usar a pedra filosofal para recuperarem seus corpos depois que descobrem que a mesma é feita com vários sacrifícios humanos.
Esses sacrifícios eram ishbalianos no período do genocídio, eram prisioneiros condenados ao corredor da morte, eram grupos revolucionários e persona non grata para o estado militar de Amestris. Vale a pena realizar seu sonho às custas de vidas, em sua maioria, inocentes?
Homúnculos, seres humanos artificiais, existem, mas têm habilidades físicas superiores às suas contrapartes originais. São eles humanos ou mais que humanos? O que é ser humano num mundo marcado pela barbárie e pela busca pelo divino? Se os alquimistas buscam o status de deuses, por que os homúnculos não podem ter o título de humanos? Essa capacidade de questionamento é forte ao longo de toda a história.
Logo no primeiro capítulo, Edward Elric diz: os elementos que compõem o ser humano são baratos e podem ser encontrados em qualquer loja de química. Se o corpo é a limitação de humano, o próprio Elric não entraria na categoria, já que tem suas próteses de aço, e seu irmão sequer entraria no debate.
Mas ele rejeita essa ideia, e abraça até mesmo as quimeras, seres humanos com DNA animal criados secretamente pelo exército com soldados feridos, como pessoas tão merecedoras de reconhecimento quanto quaisquer outros.
As quimeras foram criadas em cima de soldados feridos durante a guerra civil de Ishbal, eram pessoas usadas como recurso para o "progresso científico" e militar amestrino, sendo posteriormente descartadas para morrer ou viver às margens da população, criando comunidades no submundo.
Por fim, o que define de fato o ser humano, ao menos na série, ou o que nos é indicado como resposta definitiva, é a alma como centro de tudo. E o espírito serve como ponte entre matéria e identidade.
Além disso, os laços formados dizem muito sobre aqueles que são humanos e os que não são. A humanidade de cada um varia de sua experiência em vida, de como se constroem os significados para sua existência.
Homúnculos são motivados pelo desejo do Pai, e servem como armas. Os alquimistas são motivados pelas ordens do Fuhrer, e servem como armas. Scar é um ishbaliano buscando vingança contra os alquimistas que participaram do massacre de Ishbal, e se usa como arma, abandonando sua fé e seu nome para se tornar uma arma. A impessoalização desses personagens não se dá pelas condições inerentes a eles, mas pelas decisões que tomam diante de algum objetivo.
Por natureza, os homúnculos não seriam menores que os seres humanos, o primeiro deles, o Pai, contudo, rejeita essa "falibilidade" de seus criadores e almeja se tornar maior do que eles. Cada aspecto, cada "filho" homúnculo seu é uma pedra filosofal que condensa um "pecado capital". A compulsão pela perfeição o afasta de qualquer conexão com a realidade.
Por essas e outras Fullmetal Alchemist é minha história favorita.
