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Talvez você não saiba, talvez já tenha se esquecido, mas por quase quatro anos eu tive um site chamado Pergaminho Virtual.
A proposta era criar uma plataforma colaborativa para artistas independentes publicarem seus trabalhos e crescerem, saindo dali para um lugar melhor. A ideia era educar, produzir e divulgar para o mundo pessoas novas com grandes objetivos.
O que eu consegui, no lugar, foi bem diferente. Não necessariamente algo ruim ou pior que a proposta original. O Pergaminho se tornou um espaço para quem estava começando a escrever, formei laços com algumas pessoas ali que duram até hoje. Eu amava aquele projeto. O problema é que eu sempre vendi ele muito bem - da forma errada.
As pessoas que colaboravam não se enxergavam donas do Pergaminho, muitos dos leitores do site chegavam a sequer entender a proposta do que fazíamos ali. Quantas vezes não ouvi "Não sei se quero escrever no site, é todo mundo tão bom lá". Era um problema de imagem, e essa imagem estava vinculada ao meu rosto. Eu era o garoto propaganda, eu era o Chefe, com c maiúsculo, que cobrava artigos, textos e poemas duas da manhã para as pessoas. Havia uma distinção entre eu e eles porque eu precisava fazer a plataforma andar, por mais que eu quisesse ter a participação delas dentro disso.
Não era só eu, é claro. O Pergaminho começou com quatro colaboradores, quatro fundadores. No fim, quem realmente estava envolvido diariamente no site era eu, por uma questão de tempo. O segundo mais envolvido, o Piazzi (vou falar sobre o processo de criação da arte dele em breve), fazia a parte técnica do site. O terceiro mais envolvido era o Set - que acabou saindo posteriormente para se dedicar à música. O menos envolvido era o Jota - ele estava focado na faculdade de engenharia e, afinal, quem poderia culpá-lo por não se dedicar integralmente a um hobby?
No auge do Pergaminho, éramos mais de 20 colaboradores. Artigos, contos e poemas todos os dias, de Domingo a Domingo. Para um site sem renda feito por universitários de 18 anos, não estava tão ruim.
Mas, é claro, não era o suficiente pra mim. Eu queria para o Pergaminho o mesmo sucesso que eu queria para os colaboradores e para mim (muito sucesso, caso não tenha ficado claro), o grande problema foi entender que o mercado de arte, em especial o de arte independente, não é simples.
Eu bati cabeça muito tempo e vi, mês a mês, a regularidade de publicações cair, o número de interessados diminuir e, quando saí do meio acadêmico (eu larguei a faculdade), perdi meu principal canal de comunicação com novos interessados. A corrente que eu imaginei ter criado, essa estratégia bem parecida com uma pirâmide (cada um chama dois e mais seu público - péssimo, mas dava volume a curto prazo), não funcionava na prática.
Foi quando o Pergaminho começou a ruir, em 2018.
Foi quando o Pergaminho começou a ruir, em 2018.
Depois de um pré-lançamento infrutífero de um livro que eu tinha certeza que daria certo na escala dele (bem pequena), eu percebi que as pessoas realmente não viam o projeto como eu via. Tentei reformular, mudei as coisas, fui até considerado um tanto quanto insensível por ter afastado colaboradores regulares e antigos do site. Ignorei isso pra seguir em frente. Apesar de tudo eu ainda queria que desse certo, então era necessário pensar em um novo Pergaminho Virtual.
Um novo começo.
Em 2019, a ideia era que o site possuísse uma revista mensal: a Macunaíma Mag. Tive um trabalho inacreditável para fazer sair aquele projeto do planejamento. Seria uma revista digital, traria os colaboradores ainda presentes com materiais inéditos... Passei meses preparando a ideia e, quando anunciei, fiquei 30 dias trabalhando no primeiro volume. Finalmente lancei a revista e pedi para que compartilhassem.
Nada. Zero resultado, zero engajamento dos colaboradores.
Aqui eu comecei a ficar realmente frustrado com o Pergaminho e comigo mesmo. Meu problema nunca foi ter uma audiência baixa, isso é sempre passível de se resolver com trabalho duro e dedicação. O problema era não conseguir conectar com as outras pessoas e fazer elas caminharem comigo naquele projeto. E, é claro, eu entendo que todo mundo tem seu tempo, todo mundo tem sua vida, todo mundo tem seu propósito e seu objetivo - mas eu não era capaz de achar pessoas que viam o Pergaminho como eu via, era realmente solitário e desagradável estar em uma plataforma colaborativa que não era nada colaborativa no fim das contas. Eu não conseguia fazer aquela ideia andar; meu dinheiro e meu tempo ainda estavam entrando ali regularmente, eu me sentia drenado.
No meio de 2019, eu comecei a considerar seriamente fechar o projeto. Seria o fim de um ciclo. Foram quase quatro anos com um site que teve milhares de acessos, dezenas de colaboradores, um número incrível de artigos, contos e poemas sobre uma variedade de temas muito boa (mesmo que o grande tema sempre fosse amor, sabe como funciona essa juventude ultrarromântica). Eu já estava desgastado e o site também, a pouca notoriedade que fomos ganhando pouco a pouco sumia mais rápido do que era possível restabelecê-la.
Em Março de 2020, eu não renovei o domínio nem a hospedagem do site (mantive apenas o domínio .com.br caso quisesse reativar a proposta no futuro).
Foi o fim do Pergaminho Virtual como site. O Instagram dele continua no ar, mesmo que eu não tenha pensado em postagens novas para agora (em breve, trarei algumas). O YouTube do Pergaminho continua sendo onde posto minhas músicas, ainda que não tenha nada novo para lançar por hora (vou falar sobre isso em outra publicação).
E isso nos traz para perto do momento presente.
Antes, contudo, uma pequena observação.
Antes, contudo, uma pequena observação.
Eu sou péssimo para abandonar as coisas. Isso se traduz normalmente em três sentimentos: rancor, nostalgia e ressentimento. Eu sou péssimo para abandonar ideias, projetos. Ainda levo desenhos de quando tinha 14 anos comigo, guardados para quando quero recordar dias antigos. Acredito que boa parte do que forma nossa identidade é a maneira como organizamos nossas memórias. Nosso entendimento de ser interno, pelo menos na minha perspectiva, está relacionado à maneira como vinculamos experiências externas e pensamentos à nossa identidade. Eu não quero esquecer quem era e, por isso, não quero esquecer aqueles desenhos, aquelas memórias... Porém, memória não pode ser também acúmulo. Se você não sabe selecionar o que apaga e o que fica, vive dias saturados de momentos passados. Indo ainda mais além, toda memória mal resolvida assombra.
O Pergaminho Virtual é meu bicho-papão pessoal, mora debaixo da minha cama e, entre uma crise de ansiedade e outra, permeia meus pensamentos.
É difícil desvincular de uma proposta em que você acredita tanto, e eu acredito que uma plataforma de arte colaborativa é uma solução eficiente para um problema real. Se me perguntar como, não vou poder te dar uma resposta direta, contudo.
Essa é, provavelmente, minha única crença: a de que arte só funciona em um ecossistema saudável onde todos se apoiam.
Essa é, provavelmente, minha única crença: a de que arte só funciona em um ecossistema saudável onde todos se apoiam.
Isso significa, como já pode ter imaginado, que eu não quero acabar com o Pergaminho Virtual de vez. Ainda tenho 2000 marcadores de livro para distribuir, existem inúmeros artistas com quem quero falar, inúmeros projetos em grupo para realizar... Meu desafio daqui para frente é saber como fazer isso.
É bem provável que eu volte a postar coisas, pouco a pouco, no Instagram e no YouTube, relacionadas ao Pergaminho. Inicialmente, alguns vídeos curtos com dicas, curiosidades e alguns podcasts.
Eu não sei como vai ser isso na prática, nem quando vai ser isso, sinceramente, mas escrever sobre é importante, finalmente poder falar sobre é importante. Assim que eu tiver mais detalhes sobre esse novo projeto eu ponho aqui.
Até lá, obrigado pelo seu tempo.
