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Eu decidi voltar a ter um blog. Isso ocorreu por alguns motivos e eu vou listar eles ao longo das próximas publicações, mas hoje eu quero falar sobre uma razão específica.
No momento em que eu escrevo isso, o mundo passa por uma pandemia sem precedentes. A última coisa parecida que tivemos foi a Gripe Espanhola, 100 anos atrás, quando nada do que vivemos hoje tinha essa forma conhecida.
É um período horrível, é um momento difícil para estar vivo. Junto com isso nós temos crises humanitárias ocorrendo, como a do Iêmen, conflitos sociais estourando em todo o mundo (Black Lives Matter questionando racismo e violência policial em todo o planeta, incluindo o Brasil), o Ártico chegando a 38° e mais uma série de problemas que nem vou listar aqui para não perder o pouco de alegria no dia que consegui com grande esforço.
Toda a positividade que vinha com esse late stage capitalism desceu pelo ralo, como era de se esperar. Não dá mais pra só comprar coisas bonitas e fingir que uma hora ou outra as coisas vão se resolver.
As pessoas estão se movimentando, mas nunca parece ser o suficiente. É um começo, outro começo, quantos outros já não tivemos? Ao menos recomeçamos, mesmo sem um sinal sequer de que vamos ter um dia para parar.
Uma coisa fantástica sobre o ser humano é essa capacidade de recomeçar. Eu poderia citar inúmeros exemplos históricos, mas vou ficar com um dos mais célebres (e fáceis de se pesquisar). Quando a Biblioteca de Alexandria queimou, a humanidade, como um todo, deu uns bons 3 passos para trás. Boa parte do conhecimento ocidental (greco-romano) estava ali, em escritos únicos guardados, estudados e analisados por uma boa centena de anos.
Perdemos obras de grandes pensadores que hoje só podemos mensurar indiretamente, por referências e menções em outras obras fragmentadas. Ainda assim, boa parte dos conhecimentos em engenharia, biologia, astronomia, matemática etc. foi recuperado. Mais do que isso, nós ultrapassamos aqueles conhecimentos e chegamos ainda mais longe. Como sociedade nós fizemos isso, como indivíduos, cotidianamente repetimos esse mesmo ciclo.
E é aqui que eu entro, ínfimo dentro de toda essa história. No meio de um caos político, social, sanitário e econômico... eu, um artista.
Sendo muito honesto, ainda é difícil me reconhecer como artista e não um criador de conteúdo. O que é arte? O que é ser um artista? Eu com certeza vou falar sobre isso em breve.
Mas, eu, no meio de tanto caos, me perdi dentro dos meus projetos - outra vez. Como eu posso pensar em publicar contos, em lançar músicas ou em fazer minhas pinturas à óleo da minha sacada se toda a minha perspectiva artística é pautada pela validação e espelhamento em um mundo que, hoje mais do que nunca, estremece diante de uma série de problemas graves? O que eu tenho a acrescentar sobre qualquer coisa agora?
Não só isso, mas nos últimos meses eu perdi toda a prática e regularidade nos projetos, não consigo mais manter uma rotina produtiva pessoal para nada. Vem sendo uma tarefa hercúlea extrair qualquer gota de dopamina, serotonina e alegria ao longo dos dias.
Foi assim que pensei no blog. Ainda que eu vá publicar aqui alguns contos menores, exercícios de escrita e pensamento, eu pensei em ter um espaço para falar sobre outros assuntos, coisas que gosto, coisas que não gosto, coisas interessantes e pequenos detalhes deste imenso universo.
Eu quero não só publicar atualizações sobre minha arte, mas debater o que faço com ela e para onde quero ir com isso. Eu quero um espaço para debater as coisas de maneira que meu raciocínio não desapareça em 280 caracteres, que não seja ignorado em outra rolagem do feed.
Uma pena que eu esteja um tanto atrasado. Quem lê algo em 2020?