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Eu me faço essa pergunta umas duas vezes ao dia, pelo menos.
Eu quero ser artista, eu gosto de produzir, mas eu posso me declarar um artista? Esse deveria ser o primeiro passo, não é? Mas como eu vou assumir esse papel se ainda não tenho confiança no que produzo em termos de qualidade técnica.
Eu só vou ser um artista, só vou fazer arte, quando produzir algo excepcional? Artistas excepcionais quando produziam obras medíocres perdiam momentaneamente o título? Quantos artistas tiveram esse problema, para falar a verdade? Parece que depois de um certo estágio você está livre desse problema, o seu mínimo já é bom.
O que é arte, pra começo de conversa? Cada um tem sua teoria, seu livro favorito, seu teórico favorito sobre o assunto. Eu... não me decidi ainda. Embora leve comigo uma perspectiva um tanto quanto clássica na maneira como enxergo e avalio arte, reconheço as limitações do modelo. Primor técnico não pode ser o único pilar de um artista, é necessário ir além.
A melhor definição atual, para mim, é essa que encontrei entre os fragmentos de leitura que faço todos os dias: o artista está além do artesão, enquanto esse reproduz mecanicamente uma peça, aquele cria para além do que já existe.
Arte, então, envolve criatividade. Envolve personalidade. É sobre conceber novos conceitos e ideias que sejam tanto um espelho seu quanto um espelho das referências que carrega, do mundo que habita. Você consome as informações e regurgita questionamentos - assim como um pinguim. Mais ou menos como um pinguim. Na verdade, a maior parte das aves faz isso também. Alguns mamíferos fazem isso, é daí que se sugere a origem do beijo.
Eu faço isso? Sigo o meu modelo? Sinceramente, não sei. Acho que sou a pior pessoa pra julgar se os filtros que aplico se aplicam também ao meu trabalho. Mas aqui entra outro ponto: ser um artista depende da validação externa? Em termos mercadológicos, pode ser que sim, que sua arte só seja lida como arte por outros quando houver um consenso de um determinado grupo.
Isso, inclusive, cria alguns problemas, como um mercado de arte em galerias que é, hoje, um grande esquema.
Basta produzir? E se eu não produzir nada? Passar longos períodos batendo a cabeça contra a parede me perguntando porque diabos eu continuo fazendo isso ainda me faz um artista? Uma pessoa que pintou um único quadro em sua vida é uma artista?
O Bob Ross, e eu vou falar sobre ele em uma outra publicação, era um ser humano incrível. Pintou aproximadamente mil quadros ao longo de sua vida. No programa The Joy of Painting, que ele apresentava na televisão pública dos EUA, o Bob afirmava que qualquer um poderia ser um artista. Sua técnica de pintura era simples e favorecia pintores amadores. "Talento é persistir no interesse, qualquer um pode ser um artista". Ele ensinava pintura, arte, como uma forma de libertação da rotina, do estresse... Muitos críticos de arte não consideram Bob Ross um artista, um pintor excelente. Para eles, a técnica wet-on-wet utilizada era simples demais, rudimentar. Um quadro pintado em 30 minutos diante de uma câmera de TV não tem o mesmo valor que uma Mona Lisa...
O que é ser um artista, hoje? Videogames são arte? Não existem tantos escultores mais quanto antigamente, mas eles ainda são artistas? Aquela velha reflexão sobre o som que uma árvore caindo faz em uma floresta vazia me vem em outra forma aqui: um artista produzindo sem público retém o título? Por alguma razão instintiva, acho que não.
A verdade é que essa publicação possui perguntas demais. Eu odeio perguntas lançadas aos montes porque elas passam uma falsa sensação de reflexão. Você não se torna mais esperto apenas ao fazer as perguntas, precisa ir atrás das respostas.
No meu caso, eu vou me repetir regularmente, preso nesse ciclo, enquanto produzo. Eventualmente, vou encontrar algumas respostas, riscar algumas dessas dúvidas da lista. Até lá, a única solução é continuar escrevendo, é continuar fazendo - seja arte ou não.