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Era uma
cidade incomum. Perdida em meio às montanhas, estava sempre tomada pela
neblina, distante, com ares gelados correndo pelas ruas calçadas com pedras de
centenas de anos. A população mantinha-se estável, envelhecendo devagar em um
lugar tão tranquilo. Mal se falava em internet, TV a cabo, satélites, foguetes
privados, guerras, doença, fome. Era um pequeno ponto anacrônico,
imperturbável.
Havia,
porém, uma pequena anomalia.
Por
centenas de anos, ao norte das casas, pouco depois de uma pequena floresta que
os moradores mantinham como um bosque turístico, havia um buraco no chão
parcialmente esquecido, parcialmente conhecido, com seus mistérios e lendas de
cidade pequena.
Não tinha
mais que trinta centímetros em raio, na parte mais larga, e seu interior era
vasto e escuro como o próprio espaço. Não sabiam sua profundidade, não sabiam
sua origem. Era como uma ferida incurável na Terra, esquecido em uma cidade
incomum, pacata, onde sua existência não possuía maior valor que uma fofoca
entre vizinhos.
As crianças
mais corajosas se aventuravam perto do buraco, nunca muito próximas. Os pais
vivam dizendo que era perigoso, que poderiam cair ali. O último acidente assim
tinha acontecido 30 anos antes, um rapaz escorregou e agarrou no buraco. Metade
de seu corpo ficou para dentro, as pernas balançavam no vazio e ele gritou
desesperado por horas, até que um grupo de pedreiros da região conseguiu
puxá-lo para fora com um sistema de polias. O laudo médico oficial da cidade
vizinha, para onde o levaram, afirmava que a causa da morte, dois dias depois,
fora gangrena. O sangue ficou agarrado nas pernas, apodreceu rapidamente pela
falta de circulação e, logo que o corpo foi liberado, proteínas nocivas foram
jogadas na corrente sanguínea.
Os amigos
do rapaz, hoje com seus 40 anos, contavam outra história. Hoje, mal se lembram
do ocorrido, mas, na época, falavam sobre uma imagem assustadora. Toda a
superfície do corpo presa sob a superfície do buraco, diziam eles, possuía
marcas de mãos, hematomas profundos e feios, como se manzorras poderosas
estivessem agarrando a pele do rapaz por baixo da terra.
Os
adultos, claro, disseram não ter visto nada similar a isso, mas, depois do
incidente, por muito tempo uma pesada tábua de madeira foi posta sobre o
buraco, e as crianças foram proibidas de se aproximar do local.
A madeira
apodreceu e, alguns anos depois, o buraco estava exposto novamente. Durante a
noite, alguns jovens casais que acampavam na floresta diziam ouvir sussurros
baixos vindos dali. As senhoras mais velhas, ainda na década de 80, afirmavam
que aquela era a porta de saída do Diabo, sempre na espreita para levar uma
alma desavisada. A lenda se espalhou. O padre de uma cidade vizinha foi chamado
para prestar auxílio no caso.
É aqui que os relatos começam a ficar realmente
curiosos. De acordo com um antigo trabalhador de uma companhia elétrica que
prestava serviço na cidadezinha no dia da visita do padre, um acaso
extremamente fortuito para este registro, a cidade, pela noite, estava tomada
por um furor fervoroso, assustado.
A visita, pelo que se conta, começou normal. Logo
pela manhã, uma comitiva foi enviada para buscar o eclesiástico em um sedã
emprestado pelo prefeito. Por volta da hora do almoço, o padre chegou à cidade,
foi recebido por uma animada comitiva de sexagenárias e, em seguida, fez uma
refeição gratuita no melhor restaurante da cidade. Em seguida, feita uma hora
de descanso, foram à pequena capela local, onde o líder religioso prestou uma
homenagem à santa local e fez uma breve reza. Até aqui, como podem ver, nenhum
problema. Depois de tudo isso, foram ao buraco, finalmente. Havia uma multidão
para as proporções daquele local: quase cem pessoas aglomeradas ao redor
daquele pedacinho de falta de terra. O padre foi recebido com uma salva de
palmas, todos davam as mãos em congregação, ansiosos.
Sem cerimônias, tomado pela curiosidade, ele
enfiou o rosto dentro do buraco.
O sujeito que me contou a história, o funcionário
da companhia de luz da região, disse que chegou alguns segundos antes disso, e
estava tentando achar um local alto de onde pudesse ver o padre. Nos segundos
que se seguiram à cena anteriormente descrita, ele afirmou que todos prenderam
a respiração, tensos, aguardando por uma reação.
Quando ele, por fim, conseguiu uma posição
agradável, viu o padre retirar o rosto do buraco sem dizer nada.
Por um breve segundo o homem afirma jurar ter
visto que, no lugar do rosto do clérigo, onde deveria haver boca, nariz, olhos,
onde deveria estar a face, havia apenas pele esticada, como se o crânio fosse
uma imensa bola de ossos.
De acordo com ele, não foi o único, as pessoas da
cidade também viram aquilo. Assim que o padre se levantou, todos começaram a
gritar desesperados.
Eu ouvi essa história a poucos dias, enquanto
juntava os relatos para esse caso, então passaram-se já anos desde o
acontecimento. Quando questionei o funcionário da companhia elétrica se ele
achava que aquilo era real, obtive esta resposta:
- Real? Real não podia ser, não é? O rosto de uma
pessoa não fica daquele jeito em alguns segundos. Não tem como ser de verdade.
Nem pode. Se não, ia ser o que? O Diabo igual as senhoras ‘tavam dizendo? Não
acredito nisso não, senhor.
Eram muitos nãos para mim em uma frase só.
Insatisfeito com aquilo, decidi procurar saber
quem era o padre. Encontrei seu nome nos registros da paróquia da cidade
vizinha e, com isso, acessei os registros.
Descobri, contudo, que ele constava como morto. Em
sua certidão de óbito, o legista falava de um derrame. Procurei fotos do
funeral, da cerimônia, mas essas não existiam no arquivo público local. Ainda
mais insatisfeito do que antes, fui à igreja local, onde conversei com o bispo
em exercício. Em verdade, não foi bem uma conversa. Assim que citei o nome do
padre falecido e comecei minha primeira pergunta, fui mandado para fora. Dois
diáconos me guiaram para a rua e me recomendaram não voltar. Ninguém ali
parecia particularmente raivoso. Na verdade, pareciam amedrontados.
Voltado ainda ao relato sobre a visita do padre, o
tal funcionário contou, por último, que saiu da cidade quando já era noite. O
clérigo fora abrigado na casa do prefeito e a população se reunia à porta,
esperando por notícias. De acordo com a história, assim que colocou sua cabeça
para fora, os funcionários públicos no local, bem como um vereador, jogaram um
pano sobre a cabeça do sujeito. Foi com isso que a história se tornou uma
lenda, já que ninguém da cidade viu o suposto rosto apagado por mais do que
alguns míseros segundos. Ninguém, é claro, que não fosse da prefeitura.
Eu sabia que essa história era mais profunda do
que isso. Seria uma questão de tempo até descobrir mais informações sobre o
caso. Contudo, antes de mais nada, seria necessário resolver o mistério do
padre. Eu queria uma foto, um registro visual do momento. Mais de cem pessoas e
nenhuma delas sequer levou uma câmera para o evento? Nenhum jornal deu a
notícia? Vasculhando na biblioteca do estado, depois de voltar da conversa com
o bispo, descobri que havia um único jornal na região e que, de fato, ele havia
falado sobre o assunto. Três dias antes da visita, anunciaram o nome do padre e
o itinerário do evento. Estava tudo lá. Foi assim, inclusive, que complementei
as informações dadas pelo sujeito da companhia elétrica. O problema com esse
jornal era ser semanal. As edições saíam todo domingo, o acontecimento foi na
quarta-feira. A edição seguinte não mencionava o acidente. As poucas palavras
sobre ele eram: Visita do padre foi um sucesso. Seis palavras, nada além de uma
nota de rodapé.
Neste ponto, eu estava verdadeiramente frustrado, mas
pesquisei o nome do jornalista responsável pelo folhetim na época e, com muito
custo, encontrei seu endereço.
Fiz outra viagem longa e gastei o último dinheiro
disponível na conta para esse tipo de aventura (tenho tantas em meus cadernos
que, quem sabe um dia, as publico em algum lugar). Cheguei à cidade, estava a
cem quilômetros de distância da cidadezinha do buraco, uma vila do interior
cheia de fazendas e longos pastos repletos de vacas vagarosas sob o céu azul.
O jornalista vivia em uma casa simples, com fogão
à lenha e um pequeno curral. Galinhas corriam soltas pelo quintal enquanto os
cachorros, brincado, as perseguiam, mordendo os rabos cheios de pena só para
depois saírem correndo e latindo.
Fui bem recebido e, depois de dois copos de café
doce e forte, sentamo-nos para conversar sobre o acidente.
- Foi uma história dos infernos, você não
acredita, não ia acreditar, tinha que estar lá para ver. A cidade toda ficou
furiosa com o prefeito, acusaram ele de matar o padre. Ninguém dava tico com
teco, toda palavra vinha acompanhada de um oposto. Não tinha o que publicar,
sabe? Eu tentei, procurei falar com todo mundo, igual você fez. Fui atrás do
bispo, do prefeito, dos vereadores, de cada pessoa que esteve presente na
cerimônia, ninguém quis falar sobre o assunto. Sabe qual foi a única coisa que
descobri? Que no século 19, quando aquele povoado era ainda menor e servia como
uma vila onde viviam as famílias de garimpeiros atrás de ouro, as crianças
natimortas ou deficientes eram jogadas naquele buraco maldito. Jogadas. Ninguém
sabe de onde veio o costume. Umas senhoras me falaram que era coisa de índio,
mas elas também falaram que o saci passava debaixo da janela delas toda noite,
então não dei atenção. Quase ninguém sabe mais dessa história, mas é isso, o
lugar era chamado, na época de Berço. Berço, acredita nisso? Um nome demoníaco
se quer saber a minha opinião. Aquela cidade não faz bem. Os primeiros dias que
você passa lá são até agradáveis, o clima é bom e o espaço é tranquilo, mas é
coisa de história de terror, me entende? Quanto mais dias ali, mais você
percebe que tem uma quietude estranha, essas de velório, todo mundo fala baixo
e nenhuma risada fica no ar. É uma coisa horrível, tô te dizendo, não vai pra
lá se não tiver um plano de cabeça, se não for sair rápido. Quanto mais tempo
passar dentro daquela cidade, pior vai ser pra descobrir qualquer coisa,
ninguém dali fala nada.
Essas eram as informações que ele tinha;
sacrifícios de bebês e uma vila amaldiçoada, uma história de terror clássica.
Isso me desmotivou a continuar a pesquisa, ainda que lendas locais fossem
interessantes, eu não queria gastar mais tempo e dinheiro com um local e com
moradores que não fossem me dar as informações necessárias. Eu sou um curioso,
não um detetive.
A minha história, é claro, não acaba aqui. Existe
um motivo para eu ter ido àquela cidade investigar, existe uma razão para hoje
eu ter sonhos perturbadores e dormir sempre com a luz apagada, como seu eu
tivesse dez anos. Vivi uma história de terror inacreditável, e ela começou
quando fomos abrir a caixa do caso da época.
Depois que o jornalista me contou isso, disse que
ainda tinha os arquivos do jornal, da época em que trabalhava lá, com ele.
Estava organizando tudo para doar para a biblioteca da capital do estado e para
algumas universidades, com anotações e estudos sobre o assunto. Sob um amontado
de coisas, encontramos os documentos daquele período e, em uma pasta fina, com
pouquíssimos papéis, as próprias anotações, observações e evidências dele sobre
o caso. Reviramos as folhas enquanto ele refazia mentalmente o processo de
investigação dele, bem similar ao meu, mas quase trinta anos antes. Eu me
lembro desse dia até hoje, desse momento em particular. Com um certo espanto,
ele me disse que havia algumas fotos ali, em um envelope de papel pardo,
fechado, nunca aberto, intocado.
- Está aqui desde aquela época e eu nunca vi,
estranho – foi o que me disse na hora.
Abrimos. Eram fotografias do dia do evento. Algumas delas mostravam o padre chegando, outras eram de pessoas, provavelmente familiares, posando para a foto enquanto aguardavam. Havia uma miríade de imagens. Uma, contudo, se destacava. Era do exato momento em que o padre se levantava e os funcionários da prefeitura cobriam seu rosto. As pessoas eram um borrão, em movimento. Algumas feições já exibiam expressões de pavor, de incredulidade. Nada disso chamava verdadeiramente a atenção. Nada. O que realmente se destacava na foto era o rosto do padre, com uma expressão de pânico, de dentro do buraco.